Emprestando seu nome de um hit dos Rolling Stones, Lady Jane não é um policial. Até poderia. Sua história tem bando de ex-assaltantes, morte, seqüestro. Todos esses detalhes são importantes, só que mais em função do grande tema da vingança, que se desenrola aqui.
Robert Guédiguian, o diretor e co-roteirista (com Jean-Lous Milesi), como sempre, não pretende fazer um filme de gênero – quer fazer um comentário sobre o mundo. Seu enfoque sempre deve algo a uma visão política, mas não partidária, da contemporaneidade. Juntando-se a isso seu humanismo crítico, suas obras são sempre muito interessantes de se ver, por contemplar tantas camadas.
Nesse sentido, Lady Jane é uma de suas melhores realizações recentes, acima de Armênia, seu trabalho anterior, em que Guédiguian encarava suas raízes.
A primeira cena traz um flashback de um alegre bando de assaltantes, usando uma máscara de velho sorridente com barbas brancas, parecido com o Papai Noel, e distribuindo casacos de pele de um caminhão roubado aos moradores da periferia de Marselha.
Essa noção romântica do banditismo à la Robin Hood vai se desfazendo pouco a pouco, especialmente quando se descobre o motivo da dissolução do bando – uma morte. O que há por trás dela é o que saberá depois, ao mesmo tempo que se desenrola o seqüestro de um adolescente, filho de uma das integrantes do bando, Muriel (Ariane Ascaride). Aliás, Lady Jane.
Lady Jane é também o nome da elegante loja de presentes que ela administra, no centro histórico de Aix-en-Provence, onde ela aplicou os frutos de anos seguidos de roubos a bancos. É lá que ela atende ao celular, vendo o filho na mira de uma arma em sua tela. A tecnologia trazendo o pavor cada vez mais perto.
O seqüestro do filho leva Muriel a retomar contato com os ex-comparsas, René (Gerard Meylan), que trabalha numa boate suspeita, e François (Jean-Pierre Darroussin), modesto reparador de barcos. A volta de Muriel reacende velhas fantasias românticas de François, o que pode abalar seu casamento, em que tem duas filhas.
O desenrolar do seqüestro fez alguns críticos internacionais traçarem semelhanças com Michael Haneke, especialmente em Caché. Embora Lady Jane seja, com certeza, um dos filmes mais ásperos e duros de Guédiguian, não há como enquadrar na mesma seara o seu tipo de humanismo e o niilismo de Haneke.
Essa diferença decorre especialmente da contextualização sempre processada por Guédiguian em suas histórias. Sua ambição política, ao tratar de vingança, é ventilada numa cena aparentemente desligada do centro da história, quando passa numa televisão um filme sobre o interminável conflito árabe-israelense. Nada mais eloqüente sobre o que pensa o diretor francês da lei do dente por dente, olho por olho, que alimenta todas as revanches, todas as guerras.
Outro diferencial em relação a Haneke, mais nítido ainda, está na maneira como Guédiguian compõe seus personagens, com uma solidez, um humanismo que permite não julgá-los, mas entender seus sentimentos, ações, atitudes. Ninguém sairá deste filme simpatizando com ladrões ou vingadores. Mas é possível entender quem são as pessoas por trás disso.
