27/08/2026
Drama

Z

De volta ao seu país para participar de um comício preparando as futuras eleições, um político de esquerda é assassinado num incidente planejado para parecer um acidente. Um dedicado juiz de instrução começa a esclarecer os meandros do caso, que envolve a participação de chefes militares e da polícia.

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É muito difícil que um filme resista ao teste do tempo da maneira como Z, de Constantin Costa-Gavras, comprova neste oportuno relançamento com imagem e som restaurados. Cinquenta e seis anos após sua estreia, em 1969, o filme mantém intacto seu espírito de reflexão política - até porque a realidade insiste em reproduzir alguns dos seus piores vícios.

É singular que os dois principais personagens deste drama político, o juiz de instrução, interpretado por Jean-Louis Trintignant - premiado em Cannes - e o político no centro de uma conspiração, vivido por Yves Montand, não sejam jamais referidos por seus nomes - muito embora os personagens reais em que se baseiam sejam sobejamente conhecidos. O que importa, no roteiro assinado por Costa-Gavras e pelo escritor Jorge Semprún, é o simbolismo de seus papéis, os arquétipos que ambos representam. Que sejam baseados em pessoas reais - Christos Sartzetakis, no caso do juiz, e Grigoris Lambrakis, do político - torna-se apenas um reforço a uma história que vários países têm condições de compreender, por terem vivido conspirações semelhantes. 

Mesmo tendo-se inspirado em fatos reais, ocorridos na Grécia de 1965, o filme funciona como um thriller, embalado na montagem habilidosa de François Bonnot, vencedora de um Oscar, e na música inspirada de Mikos Theodorakis, ganhadora de um Bafta. Por isso, acompanha-se com expectativa a volta do político progressista da oposição para um comício preparatório da campanha eleitoral em seu país, vislumbrando cada passo do boicote aos seus passos pelas autoridades, que planejam um atentado a céu aberto para eliminação de seu opositor de maneira que pareça um acidente.

Num filme claustrofóbico, em boa parte fechado nos gabinetes onde se prepara o crime, frequentado também pelos aliados do político que tentam remover os obstáculos à sua movimentação, o clima é de perigo, de tensão permanente. Há medo nos semblantes dos aliados do político que volta. Mas angústia maior não há do que no rosto de Hélène (Irene Papas), a mulher do político que volta ao país depois do atentado e, apesar das poucas falas, exprime em seu olhar o sofrimento de um tempo com poucas esperanças.

Figura central para o desmascaramento do crime, o juiz também pouco fala. Olha muito e, sobretudo, age - deixando claro em seus interrogatórios precisos o quanto não está convencido da veracidade da versão que tentam lhe impor o procurador-geral, o chefe da polícia e o general, a do acidente. Pressionado por todos eles, o juiz emerge da história como um centro moral, que resiste às conveniências da omissão, mudando o rumo das coisas - ao menos, naquele momento, o que não diminui o tamanho nem a importância do seu gesto corajoso. 

Vencedora do Oscar de filme estrangeiro e do Prêmio do Júri em Cannes, esta que é uma das obras magistrais de Costa-Gavras é um verdadeiro libelo contra os autoritarismos e o valor da ética. Uma única pessoa pode fazer toda a diferença, no momento histórico preciso. 

Por conta de suas inúmeras semelhanças com tantas outras situações de golpe e ditadura, Z permaneceu proibido pela censura no Brasil governado pelos militares por cerca de 15 anos após o seu lançamento original, só sendo visto no País na década de 1980. Décadas depois, o filme mostra que não estão esgotadas as reflexões que ele é capaz de suscitar. E isso é maior do que qualquer outro prêmio.

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