Mais do que isso, a obra publicada na década de 1980, escrita por Alan Moore (que não aceita ter seu nome nos créditos de nenhuma adaptação) e desenhada por Dave Gibbons, questiona o lado humano dos personagens com superpoderes: até onde a humanidade necessita deles? Como Batman – O Cavaleiro das Trevas já apontou no ano passado, herois podem entrar numa crise de identidade bem séria. Combater o mal pode não ser tão compensador como imaginam os meros mortais.
Em sua essência, ao menos no começo,Watchmen é um suspense – o clássico “quem é o assassino?”. No prólogo, o Comediante (Jeffrey Dean Morgan, de PS – Eu te amo), um ex-heroi decadente, é assassinado. A cena acaba com seu botton sorridente manchado por uma gota de sangue – uma imagem emblemática da série, que será retomada algumas vezes.
O crime dá início à jornada do misterioso Rorschach (Jackie Earle Haley, de Pecados Íntimos) para reencontrar seus amigos que também foram super-herois no passado. Coruja II (Patrick Wilson, de Ao Entardecer) é um bonachão acomodado; Adrian Veidt, o Ozymandias (Matthew Goode, de Match Point – Ponto Final), conhecido como “o sujeito mais inteligente do mundo”, ganha a vida licenciando produtos baseados em seus amigos; e Lauri Júpiter, a Espectra II (Malin Akerman, de Antes só do que malcasado) vive com o Dr. Manhattan e tem problemas com a mãe, Sally Júpiter (Carla Gugino, de As Duas Faces da Lei).
Porém, o personagem mais interessante de toda essa saga é o físico Jon Osterman, também conhecido como Dr. Manhattan (Billy Crudup, de Missão Impossível 3). Quando trabalhava em experiências para o governo, acabou atingido por uma forte carga nuclear. Tornou-se azul – e praticamente indestrutível –, além de adquirir poderes como ver o seu passado e futuro.
Com essa gama de personagens, o roteiro assinado por David Hayter (X-Men 2) e Alex Tse tenta dar conta do passado de todos eles, o que acaba sendo um problema no desenvolvimento da ação. Aliás, quando a ação se interrompe a fim de contar a formação de algum personagem é como se uma nota de rodapé fosse introduzida no meio do filme, prejudicando todo o andamento da história.
Paradoxalmente, a melhor passagem, que conta a história do Dr. Manhattan, acaba sendo também a mais complicada por ser inserida bem no meio do filme. Quando descobrimos o seu passado e o seu dilema, tudo começa a fazer sentido. Mesmo sendo visualmente bonita, a sequência é verborrágica, carregada de termos científicos e da filosofia New Age típica dos anos 1980, além da trilha sonora de Philip Glass. Depois desse longo flashback, Snider não consegue mais retomar o ritmo.
Certamente, os fãs da série em quadrinhos vão se deleitar vendo praticamente tudo o que foi concebido no papel transferido para a tela, inclusive diálogos literais. Mas a alegria de alguns pode ser o pesadelo de outros. Tanta reverência não deixa espaço para que os personagens e a trama respirem sozinhos.
O ar retrô de Watchmen (a ação se passa em meados dos anos 1980 mas com forte influência da década de 1960) é reforçado pela trilha sonora, que inclui Bob Dylan, Simon & Garfunkel, Leonard Cohen e Billie Holiday. Aqui, Nixon concorre ao quarto mandato e uma guerra nuclear entre Estados Unidos e União Soviética é iminente.
Watchmen possui um acabamento visual atraente e, ao contrário de outras adaptações reverentes, como Sin City, não cansa. Por sua vez, o questionamento central do filme pode fazer uma ponte com os tempos atuais de incertezas e guerras pelo mundo. O preço pela paz pode ser mais caro do que se imagina.
