Diretor e roteirista versátil, com trabalhos como Estrela Solitária (96) e Tudo pela Vida (92), Sayles situa sua história em Harmony, Alabama. O nome da cidade é a primeira ironia sutil. Naquela cidade de maioria negra e oprimida, a harmonia passa longe. Em geral, os cidadãos negros são soldados, convocados para a recém-iniciada Guerra da Coreia, ou explorados em trabalhos braçais, como a colheita do algodão. Às vezes, sem pagamento algum. Como é o caso dos desempregados que, vagando pela estrada, à procura de trabalho ou não, são presos por vadiagem pelo xerife (Stacey Keach) e entregues, mediante uma quantia por cabeça, ao juiz que tem uma enorme propriedade rural.
Um dos jovens que cai nessa armadilha é o guitarrista Sonny Blake (o blueseiro de Austin Gary Clark Jr.). Obrigado a colher algodão de graça e ainda passar a noite numa cadeia superlotada e infecta, ele não perde a esperança de sair e e mostrar o que sabe. Sua chance de ouro está nas mãos de um dos raros empresários negros da cidadezinha, o pianista e dono de bar Tyrone ‘Pinetop’ Purvis (Danny Glover).
Dono do Honeydripper, bar que apresenta shows de blues tradicionais, como da cantora Bertha Mae (a veterana cantora Mable John), Tyrone está à beira da falência. Todo o público local está seduzido pela novidade das juke boxes, que já chegaram no bar em frente.
Apavorado, Tyrone consegue uma brecha na agenda de uma das grandes sensações do blues da época, Guitar Sam, do Arkansas. Sem grana nem para pagar a luz, ele conta com a providencial ajuda de seu empregado, Maceo (Charles S. Hutton), que faz um “gato” na instalação. Além disso, os dois conseguem, num lance de sorte, enganar o motorista de caminhão (o próprio Sayles, numa ponta), que veio entregar o lote de bebidas do concorrente abonado.
Tudo pronto para a grande noite, que foi divulgada por folhetos distribuídos em toda a região, Tyrone leva o cano do grande artista esperado. Uma nova tramoia se faz necessária, desta vez, contando com a providencial ajuda de Sonny – que é tirado da cadeia mediante outro suborno, este gastronômico, ao corrupto xerife, louco pelos sanduíches de frango frito da mulher de Tyrone, Delilah (Lisa Gay Hamilton).
Enquanto o marido vive sua encruzilhada financeira, Delilah debate-se com um dilema moral – ela tem que decidir se adere ou não à igreja protestante onde frequenta semanalmente os cultos. Se o fizer, terá de deixar para trás Tyrone e seu bar, considerado um antro do vício pelo pastor.
Fotografado pelo colaborador habitual do cineasta inglês Mike Leigh, Dick Pope, Honeydripper... é também uma engajada reconstituição de época. Fica muito claro, e de forma atraente, sutil e não-didática, que aqui estavam sendo lançadas as raízes do movimento pelos direitos civis que sacudiria os anos 60. E de um momento musical que, felizmente, não pararia de produzir frutos.
