Filmes coletivos, como Tóquio!, partilham do mesmo problema. É difícil manter o mesmo nível em todos os segmentos. Aqui não é diferente. Três curtas compõem o longa assinado pelos franceses Michel Gondry (Brilho eterno de uma mente sem lembranças), Leos Carax (Os amantes da Pont Neuf), e o sul-coreano Bong Jo-hoo (O Hospedeiro).
Não existe nenhum episódio muito bom aqui. Mas, quando colocados lado a lado, o terceiro (Balançando Tóquio), de autoria do sul-coreano, acaba se destacando, por ser o mais bem resolvido de todos – tanto no campo da narrativa quanto do visual. Nele, um rapaz que há anos vive isolado dentro de sua casa, sem fazer contato com outras pessoas, acaba se apaixonando por uma entregadora de pizza, quando troca um olhar com ela.
O primeiro, Design de Interiores, de Gondry, é adaptado de um gibi de Gabrielle Bell, chamado Cecil and Jordan in New York. Ou seja, é uma história que originalmente se passava nos Estados Unidos e foi ‘adaptada’ para o Japão. Excetuando pelo cenário, nada faz qualquer referência à cidade-título, que justifique a inclusão do curta nesse longa coletivo. Se a proposta era retratar Tóquio, Gondry passou longe de alcançar qualquer objetivo com seu curta sem muita graça ou charme.
O pior de todos, no entanto é o segundo, Sr. Merda, do francês Carax. Numa tentativa de parodiar filmes de criaturas monstruosas, o diretor, que também assina o roteiro, inventou uma criatura que emerge dos esgotos de Tóquio e aterroriza a cidade. Ele parece humano, usa uma roupa verde, uma barbicha estranha, não tem um olho e fala uma língua inteligível. Depois de muito aterrorizar a cidade, acaba preso e ganha a alcunha de Sr. Merda. A única pessoa capaz de conversar com ele é um advogado francês, que conhece a tal língua. Seguem diálogos enormes e incompreensíveis entre os dois personagens.
Sr. Merda não tem muita graça e sai perdendo facilmente quando comparados aos filme de monstro reais. Aqui, a tentativa de transformar em ‘Cinema de Arte’ um gênero que é essencialmente popular sai pela culatra. A gente fica torcendo para Godzila entrar longo em cena e achatar o protagonista com sua pata gigantesca.
Ao fim, a cidade de Tóquio é mera desculpa para exercícios de três diretores bem longe de seus melhores momentos. O cenário, a bem da verdade, poderia ser qualquer um. Para um olhar muito mais instigante sobre a capital do Japão, vale (re)ver Encontros e Desencontros.
