Em Sonhos Roubados, Sandra Werneck (Cazuza – O tempo não para), de certa forma, retoma o tema de seu filme anterior, o documentário “Meninas” (2006), que acompanhava um grupo de adolescentes grávidas moradoras de comunidades cariocas. Em seu novo trabalho, a diretora questiona, agora na ficção, o que acontece com essas garotas e seus bebês.
O personagem central do longa é Jessica (Nanda Costa, da novela Viver a Vida), adolescente, mãe solteira (o pai da criança ajuda um pouco, mas a mãe dele atrapalha) e órfã que vive com o avô (Nelson Xavier, de Chico Xavier). Ela frequenta uma escola pública mas nem pensa em terminar o colegial. Quando precisa de um dinheiro extra, se prostitui.
Para aumentar essa renda – quem nem sempre é usada no sustento da filha – a personagem finge ser mulher de um presidiário (o rapper MV Bill, estreando como ator) e lhe faz visitas íntimas no presídio. Essa estranha relação, no entanto, parece caminhar para algo mais sério. Ele tem os pés no chão, ao contrário da garota, e até quer um relacionamento estável, um casamento mesmo. Mas Jessica tem dúvidas.
Jessica tem duas grandes amigas Sabrina (Kika Farias) e Daiane (Amanda Diniz, de O Sítio do Picapau Amarelo), que também moram na mesma comunidade e enfrentam problemas. Daiane acabou de completar 14 anos e é molestada pelo tio (Daniel Dantas) que a criou, embora quisesse mesmo viver com o pai (Ângelo Antonio), que nunca a assumiu. Ela não faz programas, mas sempre ganha uns trocados ajudando as amigas. Já Sabrina vive sozinha, até que um jovem traficante poderoso (Guilherme Duarte) se apaixona por ela e começa a sustentá-la.
A resolução dos problemas das três garotas, na verdade, se torna estopim para novas complicações em suas vidas. Jessica briga com a mãe evangélica (Zezeh Barbosa) do pai (Silvio Guidane) de sua filha. Daiane quer ganhar o amor do pai e uma festa de 15 anos, mas só conquista a amizade de uma cabeleireira (Marieta Severo). Sabrina raramente vê o namorado, embora ele pague sua casa. O envolvimento dele com o tráfico poderá lhe trazer problemas.
Com roteiro assinado por seis pessoas – entre elas, a diretora e seu parceiro de outros filmes, Paulo Halm – Sonhos Roubados foi buscar sua base no livro-reportagem As Meninas da Esquina – Diários dos Sonhos, Dores e Aventuras de Seis Adolescentes do Brasil, da jornalista Eliane Trindade –, reduzindo as personagens a apenas três.
Com uma esmerada direção de fotografia de Walter Carvalho – parceiro de Sandra em diversos filmes e codiretor de Cazuza – O tempo não para –,Sonhos Roubados faz um retrato franco da juventude feminina das comunidades cariocas. A maioria dos filmes coloca em primeiro plano os homens desse mundo. Aqui, a diretora dá voz às mulheres que estão por trás desses chefões, traficantes e pais muitas vezes negligentes.
O filme levou o prêmio do júri popular no Festival do Rio do ano passado, de onde Nanda Costa saiu consagrada como melhor atriz. Isso prova o seu poder de comunicação com platéias, o que, no entanto, não justifica a simplificação dos dramas das personagens na reta final, quando tudo parece encaminhar para um final ameno, enfraquecendo um pouco tudo o que se viu até então.
