06/06/2026
Drama

Brava Gente Brasileira

A cineasta Lúcia Murat constrói uma trama sobre um conflito entre portugueses, índios guaicurus e espanhóis na região do Forte Coimbra, no Pantanal Matogrossense, em 1778.

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Em seu terceiro longa-metragem, Brava Gente Brasileira, a cineasta Lúcia Murat constrói uma trama, quase intimista, sobre um conflito entre portugueses, índios guaicurus e espanhóis na região do Forte Coimbra, no Pantanal Matogrossense, em 1778. Chega às telas brasileiras após participar do último Festival de Toronto, onde teve uma ótima recepção, tanto pela crítica quanto pelo público, e com dois prêmios do Festival de Brasília 2000: melhor atriz (Luciana Rigueira) e melhor trilha musical (Lívio Tragtemberg).

A chegada de um naturalista e cartógrafo da Coroa Portuguesa ao Brasil serve de pretexto para a diretora e roteirista discutir temas que nos incomodam há séculos: a posse da terra, a questão ética, a violência nas relações sociais. Dom Diogo (o ator português Diogo Infante), jovem culto de Coimbra, leitor de Rousseau e Voltaire, é mandado ao Brasil para documentar o território da colônia, a partir de um posto militar na província do Mato Grosso. Sua viagem, do litoral até os confins da possessão, é permeada por conflitos, tanto entre os diferentes homens portugueses quanto entre eles e os índios. A caravana é liderada por Pedro (Floriano Peixoto), um homem rude que vê os índios como animais, e conta também com Antônio (Buza Ferraz), obcecado por encontrar minas de prata.

A intolerância dos europeus com uma cultura totalmente nova e o autoritarismo com que tratam os nativos não é suavizado pela diretora. Muito pelo contrário, ela extrai dos personagens toda a perplexidade que sentem quando entram em contato com o "outro". Mas, alguns homens ambíguos também povoam este universo, como o oficial responsável pelo forte, interpretado por Leonardo Villar, um português quase aculturado, que vive com uma índia e sempre questiona a rigidez dos julgamentos do representante da Igreja no local, vivido por Sérgio Mamberti. Mas o grande conflito é reservado a D. Diogo que, em sua ânsia de absorver a nova cultura e se adaptar ao Novo Mundo, vive um romance trágico com uma princesa guaicuru, Ánote, interpretada pela atriz Luciana Rigueira.

Brava Gente Brasileira, apesar de partir de um fato histórico, é um filme com a marca de Lúcia Murat que, em sua essência, tem a mesma temática das obras anteriores da diretora - Que Bom Te Ver Viva, documentário sobre as mulheres torturadas durante a ditadura, e Doces Poderes, sobre as relações entre a mídia e a política -, o desrespeito aos direitos humanos básicos e a sobrevivência a atos de violência. O filme é uma ode à bravura dos índios cavaleiros, vencedores deste confronto há mais de 200 anos, esta Brava Gente Brasileira que sobreviveu apesar de todas as tentativas de extermínio. A opção, radical, da diretora em não utilizar legendas para as falas dos nativos nos dá a exata dimensão da resistência destes frente ao colonizador insensível, que tenta impor sua cultura sob a força das armas.

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