Roteirista e diretor que procura afastar-se da sombra do pai famoso – o escritor e dono do Nobel de Literatura Gabriel García Márquez -, Rodrigo García vem construindo uma carreira sólida, baseado num estilo que, à falta de definição melhor, poderia ser chamado de ‘arquitetura do acaso”. É o universo que frequentou em filmes anteriores – como Coisas que você pode dizer só de olhar para ela (1999) e Nove vidas (2005) - e que compartilha, por exemplo, com o cineasta Alejandro González Inárritu e seu ex-parceiro, o roteirista e agora também diretor Guillermo Arriaga, que dividiram créditos por Babel e Amores Brutos.
A maneira como García se aventura neste território, porém, é bem distinta, mais sutil e menos ávida de turbulências trágicas, tão ao gosto dos realizadores mexicanos citados. García segue a trilha dos acidentes cotidianos, da rotina do trabalho e produz suas fricções dramáticas a partir de pequenos desvios – que têm o poder, no entanto, de alterar drasticamente a rota de seus personagens.
Mais uma vez, em Destinos Ligados, o diretor e roteirista coloca em primeiro plano um universo bem feminino – aqui mais enfático ainda, já que o tema central que amarra todos os destinos é a maternidade. Uma maternidade problematizada pela questão da escolha e das substituições. Karen (Annete Bening) é uma mulher na faixa dos 50 anos, amargurada, solitária e cuidado da mãe doente (Eileen Ryan) – uma relação mediada tanto pela culpa quanto pelo rancor. Muitos anos atrás, Karen engravidou, ainda adolescente, e foi forçada a abrir mão do bebê, encaminhado para a adoção. Décadas depois, ela decide pôr fim à obsessão em torno desta filha que ela não conhece e tentar reencontrá-la.
A filha é Elizabeth (Naomi Watts), uma advogada de sucesso e um tanto implacável em suas relações afetivas – como a que mantém com o chefe, o viúvo Paul (Samuel L Jackson). Isto não impede que tenha um outro caso com o vizinho, homem casado, cuja esposa está grávida do primeiro filho.
Paralelamente às vidas de Karen e Elizabeth, corre a de Lucy (Kerry Washington), jovem casada e feliz, mas que não pode ter filhos, por isso decide tentar a adoção. O roteiro constroi lentamente as possibilidades de encontro entre estas três mulheres e que depende de uma infinidade de detalhes. O importante é que García conduz esta trama deixando espaço para que o espectador respire junto com as personagens, conhecendo suas motivações e imaginando também como elas podem juntar-se, ou não. E o filme define isto talvez de uma maneira que poucos antecipam, ao menos em sua totalidade.
Não há nenhuma grande mágica no estilo de García, apenas o empenho na tessitura de uma dramaturgia humanista, antenada no contemporâneo e que tem o cuidado de compor personagens capazes de verossimilhança – sem esquecer de inseri-los numa construção cinematográfica sólida e com atores maravilhosamente conduzidos. Samuel L. Jackson, por exemplo, há muito não é visto num papel com esta grandeza.
