O filme Violência e Paixão é um dos grandes momentos de Luchino Visconti (1906-1976) como retrato familiar em que o contexto social é decisivo e indissociável de tudo o que a história tem a dizer. Não poderia ser de outra forma para o aristocrático e politizado diretor que não por poucos motivos era conhecido como o “conde vermelho”- tanto por ser nobre de nascença, de uma antiga família milanesa, quanto por ter-se tornado comunista, embora continuasse acreditando em Deus. Uma típica dualidade viscontiniana, a de um homem multifacetado, fascinante e nada fácil de decifrar e que por isso era capaz de realizar filmes igualmente grandiosos e revestidos de tantas possibilidades de leitura.
Burt Lancaster, que estrelara 11 anos antes O Leopardo, é mais uma vez o protagonista – um homem maduro, assolado pelas mudanças do tempo mas apegado ainda à velha ordem. Em Violência e Paixão, ele é o Professor, um intelectual nostálgico, vivendo na torre de marfim de um antigo apartamento em Roma, onde ele está cercado por seus livros, discos de música clássica e as lembranças de sua mãe (Dominique Sanda) e da mulher (Claudia Cardinale), que se foi muitos anos atrás.
Culto e versado em artes – na primeira sequência, ele é visitado por marchands que buscam vender-lhe um quadro -, o Professor parece pouco equipado para enfrentar os novos tempos, em que a vulgaridade e o poder do dinheiro, eventualmente do mau-gosto, parecem predominar sobre seus modos corteses, oitocentescos. Tanto quanto o Príncipe de Salina, seu personagem em O Leopardo, ele tem dificuldades econômicas para resistir a essa modernidade opressiva. Por essa razão, o Professor aceita alugar seu apartamento no andar de cima, que sonhava reservar para a ampliação de uma já muito ampla biblioteca, para uma muito insistente ricaça, Bianca Brumonti (Silvana Mangano).
A senhora Brumonti é o virtual oposto do Professor. Espalhafatosa no falar e no vestir, ela invade o apartamento dele, fumando, sem apresentar-se, junto com os marchands. Vasculha tudo, olha todos os objetos com a curiosidade de quem acha que o dinheiro tudo pode comprar, tudo pode renovar. Uma insistência, afinal, compensada pela capitulação do Professor. Que terá muitas razões para arrependimento.
Na primeira noite da chegada do novo inquilino do apartamento, o jovem amante da senhora Brumonti, Konrad (Helmut Berger), promove uma destruição das paredes. O resultado é que o próprio apartamento do Professor tem suas paredes invadidas pela água dos encanamentos. Ironicamente, começa aí um relacionamento peculiar entre ele e Konrad, um ex-militante esquerdista de 1968 convertido em amante da burguesa casada e desvairada.
Esta relação entre o pacato e refinado Professor e o grupo de jovens do outro clã, integrado por Konrad, pela filha de Bianca, Lietta (Claudia Marsani), e o namorado Stefano (Stefano Patrizi), logo revela uma complexidade que confere à história sua densidade. Muito diferente dos imbróglios familiares comuns a um outro tipo de cinema, aqui há várias camadas a atravessar. Se o professor é invadido, ele também experimenta algum prazer nesta invasão – que rompe seu isolamento, afinal, estéril e acomodado a um passado que não pode voltar mais. Os jovens mal-comportados, que investem todo o seu tempo em orgias, bebedeiras e aventuras diversas, por sua vez, procuram algum ponto de referência na figura culta e paternal de seu senhorio.
Inúmeras situações envolvem o Professor e seus inquilinos – porque a Konrad costumam juntar-se frequentemente Lietta e Stefano, com ou sem a barulhenta senhora Brumonti. E a riqueza e contundência dos diálogos se supera em cada uma das cenas. Verifica-se aí a precisão do título original italiano - Gruppo di famigilia in un interno -, que remete a um cenário em que personagens, fechados num huis clos, degladiam-se e são observados pela lente onipresente do diretor como ratos num laboratório. O título em português parece um tanto vago e genérico, em comparação.
Captam-se aqui alguns dos mais caros temas do diretor, como a persistência, algo fantasmática, da estrutura familiar; o enfrentamento entre a tradicional cultura aristocrática (da qual Visconti provinha, por isso, conhecia tão bem) e a agressividade vulgar dos novos-ricos; os dilemas do esquerdismo esfacelado de 1968 e a permanência da violência clandestina fascista (um tema que a Itália pós-Berlusconi não tem feito mais do que tornar tragicamente oportuno rediscutir).
Acima de tudo isso, o que este Visconti, já abalado pela doença (sofrera uma trombose 2 anos antes), parece mais querer abordar é a passagem do tempo, sua voracidade implacável. Como o Professor, ele parecia estar se despedindo da vida, mas com a elegância e o grande estilo de sempre, neste que foi seu penúltimo filme.
A cópia restaurada permite desfrutar integralmente da bela fotografia de Pasqualino De Santis e da montagem de Ruggero Mastroianni.
