Miguel é um pescador, casado e prestes a se tornar pai. Ele, no entanto, também é apaixonado por um fotógrafo, que é hostilizado no vilarejo onde vivem. Quando este morre, o pescador é capaz de ver o seu fantasma e eles tentam manter o relacionamento, até o dia em que isso se torna impossível, e Miguel precisa fazer uma escolha.
- Por Alysson Oliveira
- 04/04/2011
- Tempo de leitura 3 minutos
O peruano Contracorrente é um pequeno filme de grande alcance, que marca uma bem-sucedida estreia em longas do peruano Javier Fuentes-Léon, que também assina o roteiro. A história pode ser definida como o dia em que Dona Flor e seus dois maridos encontra O segredo de Brokeback Mountain – com ênfase na melancolia do segundo, ao invés da comédia do primeiro.
Contracorrente se passa num pequeno vilarejo no Peru, que parece perdido no tempo e no espaço. Não fossem algumas bugigangas tecnológicas, podia-se pensar que a história se passa há algumas décadas. Ao menos, a mentalidade local parece parada no passado remoto.
Quando o filme começa, o pescador Miguel (Cristian Mercado, de Che – Guerrilha) tem um romance com o fotógrafo e pintor Santiago (Manolo Cardona, de A mulher do meu irmão). Não seria nada demais, não fosse o primeiro casado com Mariela (Tatiana Astengo, de Pantaleão e as visitadoras), que está grávida. A relação entre os dois sempre acontece ao longe, em praias isoladas, onde sozinhos podem viver o seu amor.
O pescador Miguel é um personagem com um conflito muito grande: apaixonado por Santiago e também por sua mulher, ele fica dividido entre o dever e seu coração. Na vila onde moram, o fotógrafo é visto com hostilidade, ninguém fala com ele e crianças atiram ovos em suas janelas.
Mas seu amor por Miguel é tão grande que, mesmo morto, ele continua aparecendo para o pescador – tal qual Vadinho para dona Flor. Porém, aqui não é como o romance de Jorge Amado, ou o filme de Bruno Barreto – não há espaço para risos no inusitado da situação. Santiago conta para Miguel que não consegue abandoná-lo, e o seu amante também não quer isso. É a situação ideal para Miguel: com o outro morto, pode viver seu romance e manter o casamento.
O diretor Fuentes-Léon dribla com criatividade as limitações orçamentárias. O cotidiano do vilarejo incorpora os temas que o diretor pretende discutir com seu filme – como o amor entre dois homens, a descoberta e aceitação da identidade de cada um. As pessoas com quem Miguel se relaciona no seu dia-a-dia (sua mulher, outros pescadores, seu filho) impulsionam a narrativa.
Mas o que traz força para essa história são seus personagens muito humanos e repletos de nuance. Desde o pescador que nem sempre sabe lidar com sua bissexualidade, até o fotógrafo bem resolvido, passando pela mulher de Miguel, que fica dividida entre o amor pelo marido e o preconceito enraizado em sua educação. Nessa educação, aliás, é estranho que homem veja novela – eles têm de gostar de futebol – por isso, Mariela dá um sorriso sem graça quando diz para as amigas que Miguel vê a reprise da brasileira Direito de Amar e gosta muito de Lauro Corona.
Ganhador de diversos prêmios, entre eles o de público do Festival de Sundance do ano passado, “Contracorrente” é, com sua delicadeza, um filme poderoso. Ao falar do amor, faz um retrato da hipocrisia.
