Há uma corporalidade toda peculiar no forte cinema do britânico Steve McQueen, que é também artista plástico e não teve, até aqui, sua obra cinematográfica lançada no Brasil.
Isto acontece pela primeira vez com o drama Shame, qaue concorreu ao Leão de Ouro em Veneza 2011 e saiu do festival com o merecido prêmio de melhor ator para o alemão-irlandês Michael Fassbender.
É a segunda vez que Fassbender protagoniza um filme de McQueen, a primeira vez sendo no inédito Hunger, em que vivia uma carnalidade de voltagem oposta à de Shame, na pele do líder do IRA, Bobby Sands, que morreu em 1981, numa greve de fome de 66 dias.
Em Shame, o entendimento entre ator e diretor e a entrega do intérprete, mais uma vez, são as marcas definidoras para o resultado de um filme visceral. Neste roteiro, assinado por McQueen e Abi Morgan, uma febre carnal devora o protagonista, o executivo Brandon Sullivan. Bonito, bem-sucedido, Brandon é viciado em sexo em série, sem relacionamentos afetivos atrelados. Sua vida é uma coleção de encontros fortuitos, a maior parte deles com prostitutas.
A fixação domina seus sentidos. Ele não pode parar de encarar mulheres no metrô, seguindo-as à menor sugestão de que foi correspondido. Seu computador, em casa ou no trabalho, é um canal aberto aos sites de pornografia. Brandon não consegue parar e esse frenesi não parece lhe dar alegria. É um círculo vicioso, que o esgota. Esgotamento é o que ele procura, numa síndrome que sinaliza autodestruição.
Essa rotina incessante sofre uma interrupção com a chegada de Sissy (Carey Mulligan), a irmã de Brandon, uma cantora que vem apresentar-se em Nova York, onde ele mora. Sissy invade o apartamento do irmão e subverte a rotina desse espaço milimetricamente calculado. Sua simples presença causa um outro incômodo, trazendo à tona um passado que Brandon não quer particularmente evocar.
Como é habitual em seu estilo, McQueen conduz sua história sem explicações prévias – não se sabe qual o passado dos personagens, não se justifica sua psicologia, só se acompanha o desenrolar de seu presente, em seus atritos com outros personagens, em seu estar no mundo. O cinema de McQueen é do aqui e do agora.
Nesse modo de filmar, o diretor convida o espectador a contemplar os acontecimentos e se deixar levar. Como na bela sequência em que Sissy canta New York, New York, a famosa canção celebrizada por Frank Sinatra, numa interpretação toda dela. Ou na saída de Brandon com a colega de trabalho, Marianne (Nicole Beharie), que permite saber mais a respeito dele. E uma noitada muito, muito perigosa de Brandon.
Verdadeiro, intenso, antenado como poucos no modo de viver urbano e contemporâneo, Shame é um desses filmes que ficam na memória, inscrevendo uma espécie de marca a ferro e fogo na esteira desses personagens tão humanos que são Brandon e Sissy. Que magníficos atores são Michael Fassbender e Carey Mulligan.
