A dualidade do título do longa do cineasta Ugo Giorgetti já é um indício do caminho que o filme – também roteirizado por ele – irá percorrer: a história de dois irmãos, João Pedro (Emilio de Mello) e Getúlio (Geraldo Rodrigues), que, cada um à sua maneira, perdem a inocência no começo da década de 1970, nos anos de chumbo da ditadura.
O teatro é o pano de fundo e, de certa forma, uma metáfora para as relações familiares e sociais nas quais esses personagens estão envolvidos. João Pedro é diretor de teatro e, no momento, ensaia uma montagem de “O interrogatório”, de Peter Weiss. Mas seus problemas não são bem com a censura, mas com o Partido Comunista que espera, de certa forma, catequizar as massas com a obra. João Pedro quer ser livre, vive para e pela sua arte e, como diz, vai atrás do novo, esteja onde estiver.
Já Getúlio precisa pedir ajuda à namorada, Lilian (Julia Ianina), neta de um general (Walmor Chagas) na reserva, para esconder num quartinho em sua mansão dois perseguidos políticos. Aí é que entra o teatro da vida real no filme. O casal – especialmente a garota – vive dentro de uma encenação para o avô. São poucos dias, mas cada segundo os consome, os transforma como seres humanos e também a sua relação.
Giorgetti tem um olhar delicado e, ao mesmo tempo, bastante realista sobre seus personagens e seu momento histórico – passando longe daquela visão de guerrilheiro repleta de glamour, idealizado ou mártir. São pessoas fazendo pequenas coisas dentro de seus cotidianos, tornando-se pequenos heróis. É nesse sentido que irão perder a ingenuidade e perceber que a luta real é mais complexa e delicada do que aquela professada em discussões. João Pedro gostaria que sua arte fosse livre, que pudesse fazer teatro a seu modo – pela paixão, não com uma agenda política tão evidente. Enquanto Getúlio é tragado quase que contra sua vontade para ajudar os dois militantes.
O retrato que o filme faz de uma época e de seus integrantes vai se complementando com pequenos personagens que trazem, em seus detalhes, nuances dos dois lados. Otávio Augusto é o tio reacionário que logo na primeira cena expulsa de seu táxi um homem de cabelo comprido e roupas hippies. Já Carlos Mecenitraz, em seu personagem, tanto um olhar mais crítico como um alívio cômico. Ele é o sujeito que chega e se acomoda, fila cigarro, bebida, faz comentários, quer vender notícia proibida mimeografada, mas não vai além disso – parece mais um relações públicas da militância.
É com esse painel de personagens que Giorgetti olha para o período. Muito ajuda o seu elenco bem dirigido – especialmente o trio central, Mello, Rodrigues e Ianina. A dimensão humana e palpável que eles dão aos seus personagens é o que traz densidade ao filme. A partir do retrato intimista, Giorgetti é capaz de captar algo bem maior e fazer um filme necessário.
