Se os argumentos de E a vida continua... estiverem corretos, serão necessárias dezenas de reencarnações até que o filme atinja um estado elevado e possa ser considerado ... um filme. Criado para explicar de forma didática os preceitos religiosos de seus seguidores, o longa é mais um exemplar da prolífica saga espírita e, com certeza, o mais fraco de todos.
Com um roteiro ingênuo, adaptado de livro escrito por Chico Xavier, cruzando histórias nas quais vítimas e algozes se alternam nesses papeis em sucessivas reencarnações, o filme padece de graves defeitos técnicos, como iluminação precária, cortes secos e abruptos entre as cenas, direção simplória e desempenho irregular do elenco. Nem mesmo o veterano Lima Duarte escapa, encarnando o instrutor Ribas, uma espécie de São Pedro severo que recebe os espíritos no outro mundo com a carranca fechada e relutante em abrir a porta para qualquer um.
O outro mundo, para onde os mortos embarcam, é um clone da Terra, só que mais arborizado e com clima ameno. Seus habitantes se vestem de branco e, eventualmente, ganham autorização para descer e rever os entes queridos que deixaram para trás. Ou acompanhar a tragédia que criaram com seus atos e rever seus algozes. O lado bom é que não é moda mais arrastar correntes.
Ernesto (Luiz Bacelli) e Evelina (a bela e simpática Amanda Acosta, uma grata surpresa num elenco sem vida) se conheceram numa estação de repouso e se tornam amigos. Ambos vão se submeter a cirurgias delicadas e, naturalmente, vão morrer. Ao despertar, no outro mundo, se reencontram, mas demoram para perceber que não são mais de carne e osso. Lá, com a ajuda do "porteiro" Ribas, cairão na real e abrirão seus corações. Ernesto conta que matou um amigo que flertava com sua mulher e Evelina relembra entristecida como era traída pelo marido.
Também não falta alusão ao pântano (metafórico, claro),nas proximidades, onde chafurdam os "espíritos inferiores", que continuam apegados à carne. Querem continuar com os mesmos vícios e prazeres, incluindo o sexo. A tarefa de Ribas será trazer esses infelizes para a luz e despachá-los para uma nova encarnação, onde inverterão os papeis: os algozes terão de conviver com suas vítimas e vice-versa. Claro que não se lembrarão de nada, mas alguma pontinha de suspeita continuará existindo.
