Em seu segundo longa, o cineasta cearense Petrus Cariry (O Grão) mais uma vez potencializa a força dramática e poética de uma história minimalista.
Apenas duas personagens estão em cena. Fátima (Juliana Carvalho), jovem mulher que faz a viagem de volta de Fortaleza, onde se radicou há anos, rumo à sua cidadezinha natal, a hoje vila fantasma de Cococi, onde ainda reside sua mãe (Zezita Matos).
Na bagagem da filha, algo inusual: o corpinho do filho natimorto, que ela pretende enterrar no lugar onde ela mesma nasceu. A estranheza da missão cresce ainda mais na medida da obsessão de sua mãe, que parece não digerir a ideia de separar-se do neto, de cuja existência acabou de saber.
Os dias se passam e a matriarca recusa-se a enterrar o neto, colocado num berço com véus a protegê-lo do sol e dos insetos, como se ainda vivesse. A filha exaspera-se com a perda de contato com a realidade da mãe solitária, que há anos cultiva uma esperança insana sobre a volta do marido, que há muitos anos deixou o lugar.
Privada dos recursos que a cidade grande lhe fornecia, a filha gradativamente é sugada por essa atmosfera de irrealidade, num ambiente que parece suspenso no tempo e no espaço, aprisionado numa lógica própria.
A aparição de quatro cavaleiros sertanejos, que visitam a casa como presenças habituais, reforça o vínculo com um realismo fantástico que a direção segura de Cariry sustenta, amparado numa montagem precisa (feita por ele mesmo) e num uso eficaz dos sons, que recobrem os longos silêncios, completando-lhes o sentido.
