10/07/2026
Drama

Pietà

Kang-do é um jovem duro e solitário, que trabalha como cobrador a serviço de agiotas, sempre recorrendo à violência. Um dia, bate à sua porta uma mulher, dizendo-se a mãe que o abandonou ainda bebê.

post-ex_7
Uma religiosidade dessacralizante embala o drama Pietà, título, aliás enganoso, de um drama duro, tingido das cores da tragédia grega, assinado pelo sul-coreano Kim Ki-duk e vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza 2012.
 
O nome da famosa escultura de Michelangelo remete, na verdade, a uma dilacerante e profana relação entre mãe e filho, que oculta o mecanismo de uma temível vingança, um dos temas favoritos do possante cinema da Coréia do Sul.
 
Vencedor do Leão de prata de melhor diretor em Veneza em 2004, com o sutil e intimista Casa Vazia, Ki-duk muda radicalmente de tom em Pietà, ao instalar um clima de tensão e impiedade no retrato de um cobrador a serviço de agiotas, Kang-do (Lee Jung-jin). O jovem é o retrato do mal, ao pressionar endividados que não honraram os pagamentos de empréstimos com juros escorchantes, levando-os a se auto-mutilarem para receberem indenizações, que serão apropriadas pelos credores.
 
A chegada de uma mulher misteriosa, Mi-sun (Cho Min-soo), dizendo-se mãe do rapaz, rompe o padrão dessa rotina doentia. Kang-do não aceita facilmente a estranha, duvidando do que ela afirma – é mesmo sua mãe que o abandonou no nascimento? Por que voltou agora?
 
Há um clima de suspeita, que a direção precisa de Kim Ki-duk sustenta em favor de uma história que, nas palavras do diretor em entrevista coletiva em Veneza, procura abraçar a humanidade – sendo este o significado do título que escolheu – e também denunciar o capitalismo extremo, do qual o cobrador do filme é um dos algozes.
 
O tom de tragédia grega que impregna Pietà é mantido por uma sucessão de imagens fortes, envolvendo mutilações e estupro, além de violência contra animais. Mas é uma violência orgânica para compor este universo perverso do filme.
 
Com este novo trabalho de impacto, o diretor sul-coreano parece estar fazendo um caminho de volta, superando uma depressão que o levou ao afastamento do cinema por três anos, um processo que ele relatou no autodocumentário Arirang (2011) – inédito no circuito comercial brasileiro.

Leia também:

Sul-coreano "Pietà", de Kim Ki-duk, ganha Leão de Ouro

post