02/07/2026
Filme de época Drama

Fanny & Alexander

Como todos os anos, o clã Ekdahl reúne-se na ampla casa da matriarca para a festa de Natal de 1907. Logo mais, a morte de Oscar, diretor do teatro que está ligado à família, abre uma temporada trágica para sua viúva, a atriz Emilie, e seus filhos, Fanny e Alexander - especialmente quando ela decide casar-se novamente com o bispo Evard Vergerus. Na Filmicca (a partir de 3/4).

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O relançamento de Fanny & Alexander, de Ingmar Bergman, no streaming permite reviver, de maneira mágica e primorosa, cada detalhe desta obra monumental, em que o diretor prometeu sua despedida do cinema. Na verdade, esta despedida acabou se concretizando em 2003, quando o filme feito para TV Sarabande chegou às telas.
 
O que um filme de mais de 40 anos atrás tem a nos dizer ? Muito, por ser aquele tipo de obra maior que já nasce um clássico, unindo drama, comédia, poesia, tocando o caráter eterno da ficção, o permanente retorno da imaginação, da fantasia e seu insuperável poder de reinvenção da vida.
 
Sendo uma história de cunho altamente autobiográfico, escrita pelo próprio Bergman, o cenário não poderia deixar de passar pelo teatro, a casa em que seu instinto criador elegeu como ponto de partida. Pertence ao teatro o clã Ekdahl, a família central cujas aventuras acompanhamos pelo olhar de duas crianças, Fanny (Pernilla Allwin) e Alexander (Bertil Guve). Curiosamente, Bergman nunca havia trabalhado antes com crianças.
 
Para quem nunca assistiu à série de TV, da qual o filme do cinema é uma versão reduzida, esta é uma grande chance de ampliar a fruição da saga desta família apaixonada e contraditória, vista através da fabulação de Alexander, menino imaginativo e com poder de enxergar os mortos, um dom que é seu primeiro fardo na trajetória de tornar-se adulto.
 
Começando com a festa de Natal na grande casa dos Ekdahl, em 1907, abre-se a porta para um retrato pintado com o maior apuro e beleza desta que parece ser a primeira família do mundo, aquela que funda os ritos iniciais da vida. Não é perfeita, é marcada pelas paixões e rivalidades, com seu destino ligado ao teatro, arte quase da idade da humanidade em que se guarda uma memória não só da imaginação como da espécie, um espaço de liberdade, de licença, demarcando um lugar onde tudo é possível e pode ser reinventado no dia seguinte. Também um lugar da transitoriedade, intenso mas finito como a vida.
 
A morte de Oscar (Allan Edwall), diretor do teatro, durante os ensaios de Hamlet – onde interpretaria, por ironia, o fantasma do pai – abre a estação de sofrimentos para Fanny, Alexander e também sua mãe, Emile (Ewa Fröling). Quando ela pensa resolver a instabilidade que se segue à viuvez casando-se com o bispo Edvard Vergerus (Jan Malmsjö), é como se o aspecto mais inquisitorial da Idade Média invadisse o território iluminista e um tanto permissivo demarcado pelos Ekdahls.
 
A sombria casa do bispo, dominada por sua mãe, irmã e empregadas doentiamente moralistas, torna-se uma prisão para Emilie e sobretudo para as crianças, especialmente o Alexander que confronta o padrasto e é severamente castigado por isso. Traduz-se neste segmento a mais pura expressão de um confronto do fundamentalismo, oposto à arte, que Emilie é obrigada a abandonar, e à própria vida.
 
A luta para o retorno do trio desgarrado ao clã Ekdahl, com a singular participação do amigo judeu, Isak (Erland Josephson), carrega de emoções essa volta triunfal, de renovação de vida. Outra festa fecha a reincorporação do trio, com um novo bebê, celebrando a constante renovação da arte, apesar das perdas, das mortes, dos fantasmas que se carrega.
 
Grande programa para matar um pouco da saudade do grande mestre Bergman.
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