26/08/2026
Drama

O Poder Vai Dançar

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O novo trabalho do diretor Tim Robbins chega ao Brasil com dois anos de atraso mas num momento bastante oportuno. Na contramão do pensamento único, tão em voga nestes dias, O Poder Vai Dançar traz à luz um conturbado período da história americana, na década de 30, que atingiu com virulência a liberdade de expressão no país e se manifestou como o prenúncio de tempos igualmente sombrios, que viriam duas décadas depois com a caça às bruxas promovida pelo anticomunista senador Joseph McCarthy.

Tomando algumas liberdades, misturando fatos reais com alguns ingredientes ficcionais, Tim Robbins retorna aos anos 30, durante a profunda depressão que decepou empregos e obrigou o governo americano a criar alguns programas para garantir a subsistência da numerosa classe artística do país. O projeto do Teatro Federal foi responsável pela montagem de peças e musicais, a preços subsidiados para a população, lotando as casas de espetáculo e dando alguma renda para os artistas filiados a sindicatos. Longas filas se formavam nas portas do teatro, com centenas de cantores, atores, músicos e técnicos em busca de alguma vaga.

Naqueles tempos duros, os conservadores tentaram limitar a todo custo os gastos com o projeto, alegando que o governo estava fomentando o trabalho de comunistas. Uma comissão da Câmara dos Deputados iniciou uma verdadeira caça às bruxas, instigando os próprios artistas a delatarem companheiros.

Foi nesse ambiente que o diretor resgatou a história do compositor Marc Blitzstein (1905-1964), autor do musical "The Cradle Will Rock", uma obra revolucionária, tanto política quanto esteticamente. A história se passa em Steeltown, cidade controlada pelo vilão Mr. Mister que controla a população por meio de chantagens e subornos e um dia será confrontado por um sindicalista. Um enredo muito ousado para o comitê da Câmara, que impediu a sua montagem cortando em 30% as verbas destinadas ao Teatro Federal.

E Tim Robbins traz à luz os personagens envolvidos nessa batalha artística pela liberação da obra: Orson Welles (Angus Macfadyen), o jovem e talentoso diretor que dirigiu a montagem original, a moradora de rua Olive Stanton, contratada como ajudante e que se revelou uma delicada cantora (interpretada com rara emoção pela atriz Emily Watson), o produtor John Houseman (Cary Elwes), entre outros. Mistura ainda à trama personagens que não participaram do episódio, como o pintor mexicano Diego Rivera (Ruben Blades) e o banqueiro Nelson Rockefeller (John Cusack), envolvidos numa batalha particular que culminou com a destruição de um painel executado pelo artista na sede do conglomerado do empresário, por conta de personagens de esquerda acrescentados à pintura, como o líder russo Lênin. Esses fatos ocorreram em 1934, três anos antes da montagem do musical de Blitzstein.

Mas essas liberdades não prejudicam o filme. Ao contrário, reforçam ainda mais a cobertura de um período tão importante na história americana, retratando o crescimento do conservadorismo durante a depressão econômica. Oportuna também a introdução de William Randolph Hearst (John Carpenter), o magnata da imprensa (que moveria anos depois implacável perseguição a Orson Welles, por sua obra-prima Cidadão Kane) e a italiana Margherita Sarfatti (interpretada aqui por Susan Sarandon), amante de Mussolini e que fazia contato com empresários americanos, em busca de fornecedores de aço para ser utilizado na indústria bélica do líder fascista italiano.

Não se poderia esperar de Tim Robbins, sempre engajado em causas como a recente ameaça de greve dos atores em Hollywood, outro tipo de filme. Ele toma posição pelas palavras e ações de seus personagens, todos com posturas políticas que prejudicaram muito suas carreiras. E Robbins voltou a lembrar que a mesma ameaça que baniu "The Cradle Will Rock" dos palcos americanos continua a vigorar nos tempos atuais. "Eles ainda continuam censurando a arte, mas há algumas pessoas que exercem seu poder de liberdade de expressão e continuam pagando o preço por isso."

Nos palcos americanos, The Cradle Will Rock só foi montado esporadicamente. A montagem mais recente foi no ano passado, por quatro meses, pela companhia teatral Theatricum Botanicum, na Califórnia, que foi fundada pelo ator Will Geer (1902-1978), mais conhecido como o avô da série televisiva Os Waltons. A companhia é atualmente dirigida por sua filha, Ellen. Will Geer, aliás, viveu na pele um problema relatado neste musical: passou boa parte da carreira impedido de trabalhar, por ter-se recusado a colaborar com o Comitê de Atividades Antiamericanas, que comandava a perseguição macartista a artistas e intelectuais de esquerda nos anos 50.

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