10/07/2026
Drama

O último Elvis

Chegando ao 42o aniversário, Carlos sente um sufoco na vida. Separado da mulher e da filha, ele se distrai do tedioso emprego como operário com seus shows como cover de Elvis Presley. A obsessão com o ídolo o leva a confundir a vida dele com a sua própria.

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Elvis Presley não morreu e não morrerá jamais para Carlos Gutiérrez (o impressionante novato John McInerny) – até porque, em seu trabalho como cover do cantor, ele vive de ressuscitá-lo todos os dias.
 
Mais do que isso, toda a sua emoção verdadeira começa e termina nessa sua segunda personalidade que, de tão colada à sua pele, termina por recobri-lo por inteiro.
 
Ser Elvis, criando em torno desse ato sua zona de conforto, é a essência da vida de Carlos – a ponto de não conseguir conviver com ninguém que não aceite participar dessa espécie de teatro permanente, em que ele permanece aprisionado, como num infantil jogo de faz-de-conta que se tornou sério demais.
 
A mulher, Alejandra (Griselda Siciliani), separou-se dele. A filha, obviamente chamada de Lisa Marie (Margarita Lopez), só consegue fazer parte de seu mundo quando concorda em assistir aos seus shows. No trabalho diurno, como operário, ele mantém todos à distância, mantendo fones de ouvido sempre plugados. A trilha sonora nunca muda.
 
Por tudo isto, há uma sensação de limite. Nas vésperas de completar 42 anos, idade em que morreu seu ídolo, é como ele já tivesse vivido tudo. Carlos tem um plano, que esconde meticulosamente de todos – e faz o maior sentido. Para ser outro seu grand finale, ele teria que realmente nascer de novo.
 
Estreando como diretor, a partir de um roteiro próprio, o argentino Armando Bo (roteirista de Biutiful) novamente examina com bastante consistência e sobriedade a questão da identidade masculina, criando como protagonista um homem da classe trabalhadora, sufocado por um contexto embrutecedor, contra o qual ele não encontra realmente forças para reagir à altura. Nem mesmo o princípio de sintonia afetiva que ele encontra com a filha depois de um problema com a mãe é capaz de deslocar realmente seu eixo.
 
Há sempre algo de inexorável, e também de sufocantemente comovente, nas histórias de Bo, pelo menos até agora. Seu próximo projeto, Birdman, novamente ao lado do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu, é uma comédia, sobre um ator veterano em decadência (Michael Keaton) que tenta voltar ao topo.
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