Taillandier (Patrick Chesnais) chegou a uma curva da vida. Passou dos 60 anos, tem uma família estabelecida, um casamento sólido com Alice (Miou-Miou), uma carreira tranquila como pintor. Mas suas companhias atuais são a depressão e um constante mau-humor.
Nada mais o inspira e ele não quer mais pintar. As visitas de filhos e netos não o alegram. As pequenas tarefas do cotidiano o irritam mais do que nunca.
Tudo indica que os espectadores não irão gostar do protagonista, que não oferece mesmo a oportunidade de que se sinta pena dele. Mas esse é apenas um pequeno truque do diretor Jean Becker (Minhas Tardes com Margueritte), para permitir que seu personagem faça um grande e enriquecedor trajeto.
Um dia, ele decide realmente deixar tudo para trás, deixando um recado para a mulher com seu melhor amigo, o escultor Max (Jacques Weber). No porta-malas do carro, vai um rifle que sinaliza sua intenção de suicídio. Mas a estrada chuvosa acaba lhe trazendo uma inesperada companheira de viagem – a adolescente Marylou (a estreante Jeanne Lambert), igualmente em ponto de explosão.
Expulsa de casa por uma mãe perdida e um padrasto violento, Marylou é, como Taillandier, candidata ideal a uma tragédia. Mas o enredo, inspirado no romance de Eric Holder, aos poucos prepara outras aventuras para os dois personagens, permitindo que eles troquem suas visões de mundo.
A simples coexistência de um sessentão rabugento e uma adolescente sem modos sob um mesmo teto exigirá a deposição de armas. A curiosidade mútua faz o resto.
Sem negar a realidade à sua volta – Taillandier teme ser denunciado como pedófilo, caso descubram que a menina não é sua filha -, o filme procura uma genuína aproximação afetiva entre as duas gerações. Livres da tensão de um vínculo familiar real, os dois podem até trocar ideias e tornar-se amigos. E só alguém tão inexperiente quanto Marylou parece capaz de quebrar essa carcaça de amargura em que Taillandier se encerrou. Tudo com muita graça, com alguma beleza, com um indispensável humor, numa história boa de ver.
