Como um bom trabalho de metalinguagem, não há propriamente uma história a ser seguida e sim uma série de esquetes, aparentemente anárquicos, em torno de uma linha - afinal, aqui há intenção de dizer algumas coisas. O filme começa num restaurante, onde um dos atores (Jean-Pierre Marielle, de Todas as Manhãs do Mundo) implora inutilmente que um garçom lhe traga um bule de água quente, para que ele misture ao café forte demais. A situação, que vai exasperando Marielle, mostra-se uma metáfora para o dilema do intérprete que perdeu a capacidade de convencer sua audiência. No centro das diversas situações, alternam-se preocupações como a competição entre os artistas, o temor ao envelhecimento, o esquecimento dos que se foram - como na cena em que Alain Delon pergunta porque só se vêem cadeiras vazias identificadas com os nomes de Jean Gabin e Lino Ventura e indaga sobre uma série de outros atores falecidos, para verificar se mereceram a mesma distinção.
Para os atores, todos tarimbadíssimos, trabalhar tão fora das amarras convencionais de seu trabalho é uma diversão - e eles se entregam à tarefa com o prazer de crianças numa doceira. Para o espectador, porém, pode ser uma aventura um tanto cerebral. Afinal, a clássica verborragia dos franceses não é tão emocional quanto a dos italianos, com quem os expansivos brasileiros têm maior identidade. Fora isso, o público não-francês, menos familiarizado com os rostos e características pessoais de cada ator, pode sentir-se alheio às piadas internas de muitas cenas.
Para quem se sentir seduzido por aventuras cinéfilas de paladar um pouco mais intrincado, há muito com o que se entreter. Como a saída de cena de André Dussollier, que se retira para ser substituído por Josiane Balasko - que continua a ser tratada como Dussollier, embora seja evidentemente outra pessoa e ainda por cima de outro sexo, um fato que é humoristicamente ignorado por seus interlocutores. Neste absurdo, pode-se ler uma crítica ferina à facilidade com que se substituem atores e mesmo uma nem tão sutil insinuação sobre a ingratidão do público, que costuma engolir sem protestos as trocas mais descabidas.
A cena final é comovente, desde que se tenha uma informação que o filme não dá: o diretor Bertrand Blier (que fez antes Meu Homem e Meu Marido de Batom) e o ator Claude Brasseur falam por telefone celular com seus respectivos pais, ambos atores, ambos falecidos. Nesse diálogo imaginário, que sinaliza a eterna ponte entre a tradição e a vanguarda na arte, fecha-se a sofisticada carpintaria artística deste filme raro.
Cineweb-20/9/2002.
