09/07/2026
Drama

Lore

Lore é uma garota de 16 anos. Filha de um oficial nazista, ela só conheceu o conforto e a ideologia de Adolf Hitler como verdade. Quando a Alemanha é derrotada e seus pais são presos, ela deve fugir, conduzindo seus irmãos menores - um deles, um bebê - pelo país vencido e desesperado. No caminho, enfrenta perigos. E ganha a proteção de um estranho jovem, Thomas - que tem documentos de judeu.

post-ex_7
 Lore (Saskia Rosendahl) é o genuíno fruto de uma família nazista. Seu pai (Hans-Jochen Wagner) é um oficial bem-posto na hierarquia, sua mãe (Ursina Lardi), uma dama burguesa que se empenhou em gerar prole ariana numerosa para o Führer. Aos 16 anos, Lore é a mais velha. Em seguida, vem Liesel (Nele Trebs), de 9 anos, os gêmeos Gunter (André Frid) e Jürgen (Mika Seidel), de 7, e o bebê Peter (Nick Holaschke), de colo.
 
É 1945 e o grande sonho do III Reich acaba de ruir. Os pais de Lore estão destruindo documentos e levam a família para um refúgio no interior. O oficial desaparece. A mãe, logo a seguir, entende que deve entregar-se às autoridades aliadas, antes que os camponeses enraivecidos a delatem. Os filhos são deixados à própria sorte. A mãe orienta Lore para que leve as crianças para a casa da avó (Eva-Maria Hagen), na distante Hamburgo.
 
Mesmo em se tratando de crianças, os camponeses não são solidários – negam-lhe mesmo comida. O máximo que oferecem é ficar com o bebê, o que Lore recusa. E inicia uma jornada cuja dureza não poderia imaginar nem mesmo em pesadelos.
 
Cada dia nestas centenas de quilômetros que têm pela frente, a pé – os trens deixaram de circular no país ocupado – é um desafio de sobrevivência. Há uma batalha diária para obter alimentos, proteger-se da chuva, do frio, da lama, encontrar abrigo, esconder-se das muitas pessoas desvairadas e ameaçadoras. A Alemanha derrotada que encontra fora de sua porta não é o país ideal que Lore imaginava. Mas ela ainda acredita que todo o horror, toda a miséria, são fruto da ação dos Aliados. O Führer sabe disso? Ele não vai reaparecer para salvar o seu povo?
 
A chegada a um posto de refugiados, pessoas deslocadas de todos os cantos, expõe Lore pela primeira vez a fotos dos campos de concentração encontrados pelos Aliados. Ela não pode acreditar – ainda mais que identifica um oficial parecido com seu pai numa das fotos.
Nesta parada, Lore conhece Thomas (Kai Malina), um jovem por quem se sente atraída, depois que este a protege de um ataque. É também chegada a hora de a garota perceber o seu próprio despertar sexual, mais uma emoção que a perturba, no meio de tanto medo, tanto desconforto e desolação.
 
Desconfiada, ela segue viagem com os irmãos. Thomas a segue e mostra-se hábil no domínio de mil recursos de sobrevivência nestas condições, tornando-se essencial à pequena trupe, por maior que seja a dualidade de sentimentos de Lore em relação a ele – ainda mais depois que ela vê seus documentos, que o identificam como judeu, um daqueles que ela sempre aprendeu a odiar.
 
O segundo filme da diretora australiana Cate Shortland confia muito numa câmera na mão que traduz toda a instabilidade destes personagens, jogados num turbilhão da História. Também foge de simplificações no arco de evolução da personagem principal, não deixando de dar destaque aos pequenos Liesel, Gunter e Jürgen. A sequência final é particularmente inquietante, como indagando: Será que os alemães realmente estão entendendo o que lhes aconteceu? Tudo indica que Lore, pelo menos, começou a perceber. E nisso não vai nem uma pitada de pensamento mágico. 
post