Doce amianto, como sua protagonista, é um filme que não tem medo do ridículo, nem de ser feliz. Ao acompanhar as aventuras e desventuras amorosas de sua personagem, um travesti, faz um estudo de caso daquele tipo de amor ingênuo, que se deixa humilhar pelo ser amado, só para ter alguns segundos com ele.
Num prólogo, o vemos humilhado pelo Rapaz (Dario Oliveira), o grande amor de sua vida. Fechada em seu mundo de fantasia, Amianto (Deynne Augusto) recebe a visita de sua Fada Madrinha (Uirá dos Reis), que se esforçará para fazê-la feliz. Mas, antes disso, conta sua história triste e trágica.
Escrito, dirigido e montado por Guto Parente e Uirá dos Reis, o longa é exatamente aquilo que se espera de uma produção da Alumbramentos (Os monstros): ousado. É também divertido em sua estética kitsch, que o faz parecer um Almodóvar dos trópicos, em sua capacidade de ir até o extremo de situações que seriam, bem, ridículas.
A narrativa é puro delírio de fantasia antirrealista e improvável que preza pela surpresa. Nessa jornada da busca pela felicidade, um flashback que narra a história da Fada parece um tanto deslocado, mas nada que comprometa o filme. A opção pelo antinaturalismo nas interpretações é acertada e contribui para dar a medida de fantasia e estranhamento com que Amianto vê o mundo. Doce Amianto é curto, cerca de 70 minutos, mas parece conter nele a verdade de uma vida. E, quando acaba, temos a sensação de ter feito uma nova amiga.
