09/07/2026
Drama Comédia

Filha de ninguém

Jovem cheia de dúvidas sobre sua vida resolve terminar o caso que mantém com o professor casado. Ainda assim, ele não desiste. Enquanto ela tenta encontrar novos rumos, outras pessoas cruzam seu caminho.

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O coreano Hong Sang-soo (A visitante francesa) é uma espécie de herdeiro do cineasta francês Eric Rohmer e da escritora inglesa Jane Austen. Deles, recebeu a capacidade para pintar miniatura delicadas e precisas, fazendo um retrato das relações humanas, que, nas entrelinhas, trazem consigo as relações sociais. Geralmente, seus personagens estão em busca do amor, mas para se realizarem e se sentirem felizes precisam passar por todos os percalços de um caminho tumultuado.
 
Em Filha de ninguém, Hong, acompanha as aventuras e desventuras de Haewon (Jeong Eun-Chae), jovem apaixonada por um professor-cineasta casado com quem manteve um caso há algum tempo. A trama do filme se tece na simplicidade das situações cotidianas que beiram o banal. Vemos a garota se despedindo da mãe que vai viajara para o Canadá, e não deve mais voltar, ou dando direções para uma Jane Birkin que, sabe-se lá o que faz na Coreia. A garota, aliás, uma aspirante a atriz, confessa sua admiração pela inglesa e sua filha.
 
Haewon se lembra do seu amante quando passa em frente ao Motel Famoso, onde ficaram juntos pela primeira vez. Conhece também outro sujeito num sebo, cujos livros são vendidos por quando o cliente quiser pagar. Eles se interessam um pelo outro, mas como ele está de partida, nada muito sério pode acontecer entre eles.
 
Tudo se resume à tentativa da garota de esquecer seu amante, Lee (Lee Sunkyun), que, aliás, acabou de ter um filho. Mas, como ele insiste em estar presente na vida da garota, a tarefa não é fácil. Os dois brigam, se reconciliam, se separam, reencontram. O refrão dessas idas e vindas é uma versão eletrônica de uma composição de Beethoven, que faz o professor se emocionar toda vez que ouve.
 
Como tantas outras heroínas de Hong, Haewon é indecisa e insegura. Sua mãe sugere que ela devia tentar ser Miss, afinal é tão bonita. Feliz, a moça começa a dançar na rua. Mas é um sonho que dura pouco. Quer acabar os estudos, mas também não se empenha. É desse poço de indecisão que deve nascer o amadurecimento da protagonista.
 
Em um dos melhores diálogos do filme, Haewon está na porta do sebo se decidindo se leva não um livro, e quanto deveria pagar, quando aparece um homem que depois ficará seu amigo. Durante a discussão, concluem que o valor que se paga por um livro é o valor que pessoa tem de si mesmo, e para não acharem que ela é barata – ele mesmo se oferece para comprar o livro pra ela. É desse purgatório entre ser e a imagem que quer passar de si mesma que a protagonista encontra a força motora para tentar entender a si mesma.
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