Em Pau Brasil, primeiro longa do baiano Fernando Belens, há algo que lembra o maranhense Exercício do Caos, de Frederico Machado – não apenas pelo rigor técnico e estético, mas por trazer à tela um Brasil profundo e desglamourizado, longe dos clichês propagados com insistência pela televisão. Enfim, é gente de verdade, que respira, come, dorme, ama, é feliz e se dá mal.
Numa cidadezinha longe dos grandes centros e de sua dinâmica social, o filme traz o embate entre duas famílias, que moram uma de frente para outra, cada uma lidando com as oportunidades que a vida oferece (geralmente as mesmas) de forma diferente. De um lado, o patriarca é Nives (Bertrand Duarte), cuja mulher (Fernanda Paquelet), vive livre e faz sexo com quem quer. Não que ela seja uma prostituta, frisa, faz pelo prazer, porque gosta.
Do outro lado da rua está Joaquim (Osvaldo Mil), pai e marido repressor, cujas mulher e filhas vivem sob domínio dele, que não dá liberdade para nada – e julga o comportamento da vizinha o tempo todo. Porém, a aproximação das moças da adúltera pode mudar a dinâmica e a estrutura das famílias.
Baseado num romance homônimo de Dinorath do Valle, publicado na década de 1980, o filme, apesar de tantas cenas a céu aberto, constrói uma atmosfera claustrofóbica, cuja explosão é inevitável. O tratamento intimista e os enquadramentos privilegiam as emoções das personagens, e, por meio destas, o diretor revela os paradoxos sociais e políticos de um lugar que parece esquecido por todos.
