E o mais curioso é que a história é baseada em fatos reais.
A chefia de uma emissora de rádio suíça é intimada a produzir matérias menos deprimentes sobre a vida real. Uma equipe é enviada a Portugal para fazer uma reportagem sobre uma suposta ajuda suíça ao país. Eles são surpreendidos em plena ocorrência da Revolução dos Cravos, em 1974, que derrubou a ditadura salazarista.
- Por Neusa Barbosa
- 07/05/2014
- Tempo de leitura 2 minutos
Abordando o passado, esta curiosa comédia franco-suíço-portuguesa termina comentando, com ironia leve, o nosso presente. Afinal, há dilemas que sempre se repetem, como a estupidez dos editores para manter o público contente, a vaidade e a falta de noção de tanta gente e a alegria breve das revoluções.
De tudo isso e mais um pouco fala Longwave – nas ondas da revolução, que tem como ponto de partida o envio de uma pequena equipe de rádio suíça a Portugal. Fazem parte da trupe desigual Julie (Valérie Donzelli), a jornalista feminista e amante do chefe (Jean-Stéphane Bron); Cauvin (Michel Vuillermoz), um experiente repórter de guerra que agora sofre lapsos de memória; e o impagável técnico de som e motorista Bob (Patrick Lapp), cuja aparência burocrata engana muito, como se verá a seguir.
O trio recebeu uma missão ingrata – produzir uma reportagem amena, que não incomode os sentimentos do público da rádio, sobre a importância de uma pequena ajuda financeira que a Suíça dá a Portugal, ainda salazarista naquele ano de 1974.
Embora Cauvin sustente que fala português, a verdade é que ele apenas pronuncia um emaranhado de sons que os locais não entendem. Não raro, o que ele diz dá margem a brigas. Por isso, acabam contratando um guia e tradutor português e fluente em francês (Francisco Belard), cujo nome, Pelé, diz tudo a respeito da paixão que o ídolo brasileiro despertou também em Portugal.
Logo nas primeiras entrevistas, que incluem um declarado racista (José Eduardo), fica muito claro que a reportagem não vai render nada aproveitável. Então, subitamente, os suíços começam a enxergar bandeiras vermelhas em toda parte. Na madrugada do 25 de abril, caiu a ditadura. É a Revolução dos Cravos começando.
A primeira reação do chefe na Suíça é mandá-los voltar. “Vamos enviar profissionais para cobrir”, é o que ele diz ao telefone. “E nós somos o quê?”, rebela-se Julie. O fato é que a turma fecha questão em desafiar o chefe, acompanhando a revolução que se desdobra diante de seus olhos, como uma verdadeira e anárquica festa popular, naqueles seus primeiros dias.
Evitando entrar por uma via muito política, o diretor e co-roteirista Lionel Baier prefere lançar seu quarteto de atores nessa paixão que percorre as ruas, inclusive em termos de costumes. Prefere-se manter um tom leve, explorando os choques culturais entre suíços e portugueses, que a essa altura se diluem em abraços, beijos e até algumas orgias.
