Indo do embrionário projeto de um local para as mais variadas expressões artísticas, iniciado em 1982, na praia do Arpoador, até o fracasso da empreitada “voadora” no México, durante a Copa do Mundo de Futebol de 1986, o filme costura, tendo como linha a gravação da festa do primeiro aniversário do espaço na Lapa, a história de uma das casas de espetáculo mais emblemáticas do Brasil e, consequentemente, da importante efervescência cultural da época.
Mas em um lugar capaz de trazer Dercy Gonçalves e promover até festival de poesia, o que fez – e faz até hoje – a fama do Circo Voador foi – é – a música. De Caetano Veloso a Alceu Valença, de Blitz a Serguei, do Barão Vermelho à Orquestra Tabajara, os trechos de apresentações são apenas uma amostra da importância da casa para a cena oitentista da música brasileira, entre os mais diversos gêneros, mas especialmente o rock.
Veio a determinação do governo de retirar a instalação da praia, uma série de lutas para se estabelecer um novo espaço na Lapa – houve a tentativa de ocupar o prédio da Fundição Progresso, mas foi em vão –; o sucesso do projeto no âmbito cultural, com casa cheia e espectadores pendurados nas estruturas metálicas, e social, cujo maior exemplo é a creche e a horta sustentadas pela organização; além da malfadada viagem à Guadalajara, cuja desorganização do grupo, algo curiosamente apontado por uma criança na própria obra, foi fundamental para a perda de patrocínio e a volta mais cedo para casa, acompanhando a própria seleção de jogadores com Sócrates, Casagrande e Alemão. Assim, todo o aspecto precário do documentário dialoga com a precariedade da estrutura do próprio Circo. Por isso, a estética VHS é até acentuada com o grafismo das legendas e créditos, semelhantes às letras da tela dos antigos videocassetes.
Para o espectador que não mora no Rio de Janeiro e, consequentemente, não conhece tão bem o espaço, o resultado disso é conflitante. Haverá aqueles que ficarão com a sensação de “quero mais” e buscarão mais informações sobre a história do Circo, assim como existirão os outros que ficarão com várias interrogações pairando após o término da sessão e, por isso, se decepcionarão com o filme. Um risco até desejável para um trabalho sobre quem estava acostumado a se arriscar no desconhecido.
