No final dos anos 1980, a ditadura militar brasileira é duramente contestada em movimentos sociais, que pedem a volta das eleições diretas, e encontra eco numa inédita liberação de regras e redistribuição de ganhos dentro do Corinthians Paulista - um movimento liderado por Sócrates, Casagrande e Wladimir, que se tornou conhecido como a Democracia Corinthiana. E encontrou um forte aliado no rock.
- Por Neusa Barbosa
- 29/10/2014
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Dentro da grande quantidade de recentes documentários sobre times de futebol, Democracia em Preto e Branco, de Pedro Asbeg, vencedor de uma menção honrosa no Festival É Tudo Verdade, destaca-se por ser bem mais do que isso. Através de entrevistas e material de arquivo, propõe-se a resgatar um momento particular na história recente do País, em que futebol, política e música pop se uniram numa mistura única, num movimento para a derrubada da ditadura militar, na década de 80.
No Corinthians, jogadores como Sócrates, Casagrande e Wladimir viram a chance de mudar as habituais regras e imposições sobre a vida dos atletas com a chegada de um novo diretor, o sociólogo Adilson Monteiro Alves, que possibilitou a implantação de um modelo mais democrático. Assim, surgiram as discussões para uma escolha conjunta de horários de concentração e treinos, novas contratações e até uma divisão dos ganhos do time que incluísse também profissionais como motoristas, roupeiros, massagistas e outros. E, o que é melhor, dentro de campo o time brilhava.
Bem-informados e ligados ao que acontecia fora dos gramados, os jogadores entravam em campo com camisetas que portavam não só a vinculação com aquela que foi chamada de “Democracia Corinthiana”, como também slogans estimulando o povo a votar naquela que seria a primeira eleição direta para governador, em 1982. E que, logo mais, daria fôlego à campanha pelas Diretas-Já, que tomou as ruas do País com milhões de pessoas em meados de 1984 e é mostrada amplamente em inserções de materiais de arquivo.
Na música pop, por sua vez, roqueiros faziam a sua parte para lutar contra a censura, que procurava impedir os artistas de protestar contra a violência e o arbítrio, contestados em músicas como “Estado Violência”, dos Titãs e “Selvagem”, dos Paralamas do Sucesso, entre vários outros. Os próprios jogadores corinthianos também mantinham uma estreita ligação com o rock, caso de Casagrande e também de Sócrates – que aparecem numa imagem, comparecendo a um show de Rita Lee (que é a narradora do documentário).
O filme traz entrevistas exclusivas com os protagonistas da Democracia Corinthiana, entre elas uma das últimas feitas com Sócrates (que morreu em 2011), além de personalidades, como os ex-presidentes Luís Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso, Marcelo Rubens Paiva, Marcelo Tas, Edgard Scandurra, Frejat, Serginho Groisman e Paulo Miklos.
