Se a certa altura Timbukutu, do veterano cineasta mauritano Abderrahmane Sissako, se torna um catálogo das crueldades humanas, a culpa não é do diretor, que faz um mosaico apresentando o resultado da intersecção entre a religião e a política em seu país, com o agravante do extremismo.
Sissako, que assina o roteiro com Kessen Tall, constrói seu filme como um documentário, com certo distanciamento, e mostra diversas histórias de pessoas vivendo sobre a opressão. Primeiro, a narrativa transita em vários pequenos segmentos, que ilustram o tema, até se concentrar em Kidane (Ibrahim Ahmed), sua mulher Satima (Toulou Kiki), e sua filha, a pequena Toya, e o garoto Issan, que ajuda com o gado. Vivem numa cabana isolada no deserto, de uma região dominada por jihadistas , que andam pela cidade com megafones e armamentos ditando ordens – proibindo futebol, música, mulheres que exibam as mãos ou os pés.
A vida, ao seu modo idílica, da família muda radicalmente quando a vaca preferida de Kidane – que atende pelo nome de GPS – morre, e quando ele vai tomar satisfações com o pescador que a matou, as consequências são trágicas. Enquanto essa trama é desenvolvida, pequenas narrativas dão conta do entorno, da opressão e da vida dos próprios jihadistas.
O que se percebe é o choque entre a modernidade e a tradição – e a resistência que pode emergir disto. Em uma das cenas mais bonitas do filme, garotos jogam futebol com uma bola imaginária. Trabalhando com Sofian El Fani (Azul é a cor mais quente) na direção de fotografia, Sissako também evidencia o contraste entre o deserto isolado onde vivem Kidane e a família, e a cidade repleta de pessoas, cores e incidentes.
