11/07/2026
Humor negro Comédia

O pequeno Quinquin

Quinquin tem 11 anos e alguns problemas com os pais, por ser muito levado. Sua rotina de brincadeiras com os amigos é interrompida quando se descobre uma vaca morta, dentro da qual estão restos humanos. Um inspetor trapalhão e seu assistente tentam investigar o mistério, enquanto as mortes continuam.

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A julgar por seus trabalhos anteriores, como A Humanidade, A Vida de Jesus e Camille Claudel, pouca gente poderia imaginar que o cineasta francês Bruno Dumont seria capaz de realizar uma comédia. Mas é exatamente dessa missão que ele se desincumbe com brilho em O Pequeno Quinquin, produzida originalmente como uma minissérie para TV em quatro capítulos e apresentada num único bloco tanto em sua première mundial, na Quinzena dos Realizadores de Cannes 2014, como na Mostra Internacional de São Paulo 2014. É neste formato único que chega ao cinema, em lançamento exclusivo no CineSesc.
 
O protagonista é um garoto de 12 anos, Quinquin (Alane Delhaye), que mora com a família numa região rural do norte da França, nos arredores de Calais. Carismático, ele foge do padrão de beleza clássica das crianças do cinema – apresenta um pequeno defeito no lábio e usa um aparelho para uma discreta deficiência auditiva. Ele é o típico moleque, capaz de inúmeras travessuras e fugindo da fúria dos pais em sua bicicleta. É bastante incompreendido, é verdade, mas sempre pode contar com sua turma, especialmente a amigona Eve (Lucy Caron). Ela, por sua vez, toca trombeta e apenas o grande afeto de Quinquin pela garota explica como ele pode suportar o horrível som que ela extrai do instrumento, apesar do seu esforço.
 
A modorra desta vida campestre é subitamente rompida quando se encontra uma vaca morta num antigo bunker abandonado da II Guerra Mundial. O local é inacessível para uma vaca e logo mais se descobrirá que dentro dela estão restos humanos – o corpo de uma mulher, sem a cabeça. Um mistério que vai esgotar as forças de uma impagável dupla de investigadores, o magrelo Carpentier (Philippe Jore) e seu chefe, o capitão Van der Weyden (Bernard Pruvost), figuraça de uma lógica plana e que distrai a plateia com a frequência e a bizarrice de seus tiques físicos e suas deduções inusitadas.
 
O crime sugere que a obsessão convive com a aparente normalidade burguesa da bucólica região, habitada por famílias de fazendeiros que vão à igreja nos domingos, trabalham em suas propriedades e visitam os parentes e os amigos. Quem pode estar cometendo crimes ali? Outros corpos aparecem, enquanto segue em paralelo a vida de Quinquin e sua turma, que atraem a animosidade do capitão.
 
O Pequeno Quinquin acerta em cheio ao criar empatia para esta turma de garotos, cujas espertezas fazem qualquer um rir, assim como as patetadas da dupla de policiais. Aos poucos, com a sequência da trama de mistério, percebe-se que o diretor continua querendo falar das mesmas coisas de sempre, ainda que numa outra chave – ou seja, de como por trás da aparente simplicidade escondem-se grandes perversões. O que Dumont coloca em questão é a própria ideia de “normalidade”, escavando em torno dela, expondo suas rachaduras diante de emoções, ciúmes, casos extra-conjugais, desentendimentos, choques racistas, preconceito contra imigrantes. Aí, o humor negro transborda, num trabalho muito original e marcante.
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