Depois de anos de casamento infeliz, Viviane Amsalem decide divorciar-se do marido, Elisha. Mas em Israel não há casamento nem tribunal civil neste caso, e o marido tem que concordar com o divórcio. Elisha se obstina em negar o divórcio, esticando a questão por anos num tribunal religioso e dominado pela tradição machista.
- Por Neusa Barbosa
- 18/08/2015
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O tribunal em que se desenrola praticamente toda a ação de O Julgamento de Viviane Amsalem parece menos um lugar de aplicação da justiça e da racionalidade do que um espaço para domar os espíritos rebeldes – especialmente os femininos.
Há uma assumida vocação feminista neste drama, dirigido pela dupla de irmãos Ronit e Shlomo Elkabetz, que aqui completam uma trilogia em torno de um casal em crise, os mesmos Viviane (Ronit Elkabetz) e Elisha (Simon Akbarian) vistos em To Take a Wife (2004) e Seven Days (2008) – ambos inéditos comercialmente no Brasil.
Não é necessário, no entanto, ter assistido aos filmes anteriores para ter compreensão total do distanciamento entre estes cônjuges, que a esposa quer resolver definitivamente com um divórcio.
Acontece que, incrivelmente, em Israel até hoje não existe uma legislação civil sobre casamentos e divórcios. Assim, um tribunal rabínico, ou seja, religioso e regido pela lei judaica ortodoxa, é que tem jurisdição para a dissolução do matrimônio.
Neste recinto, obviamente, o pedido de divórcio da mulher, que é contestado pelo marido, não encontra nenhuma simpatia. E, pela lei religiosa, para que a mulher obtenha o divórcio, ela deve obrigatoriamente ter a aprovação do marido.
Está montado o cenário para um drama claustrofóbico e, de certo modo, exasperante, por colocar em primeiro plano aquele que se torna, sim, um julgamento de Viviane – a quem os juízes nunca reconhecem o direito de romper, simplesmente, um casamento sem amor e contaminado por diversos episódios desgastantes.
A argumentação dos juízes é, claramente, no sentido de pressionar a mulher para voltar à casa familiar. O que se discute ali é se Elisha era um marido provedor e bom pai – o que ela não contesta. A crueldade mental que possa ocultar-se no relacionamento do casal parece ser apenas um detalhe, a ser suportado estoicamente pela esposa.
A câmera fechada no rosto de Viviane é um grande acerto para revelar tanto o sofrimento quanto a grandeza da vontade desta mulher – que faz de sua persistência uma arma incontornável neste tribunal em que a chantagem moralista e machista está perfeitamente à vontade, acomodada em séculos de história. Viviane decidiu ignorar esta tradição e não aceitar o que, de regra, a maioria suporta, vestindo com determinação a carapuça de rebelde de fala suave, mas indomável, mantendo sua causa por nada menos do que cinco anos.
Seu único aliado é um valente advogado, Carmel (Menashe Noy), o único a mostrar-se engajado em algum tipo de racionalidade. Ao seu redor, todos, o marido, seu irmão e defensor (Sasson Gamay), os juízes, as testemunhas trazidas, desenvolvem discursos contaminados pelo moralismo. A situação parece em permanente impasse, mantendo uma tensão que alimenta o tema que os diretores claramente escavam com perícia, expondo as entranhas de um sistema inacreditavelmente arcaico.
Não foi à toa que o filme, exibido na Quinzena dos Realizadores em Cannes e ganhador de uma indicação ao Globo de Ouro (depois de ter sido indicado como representante israelense ao Oscar de filme estrangeiro), causou um acalorado debate em Israel, no sentido de mudar a legislação. Eloquência e emoção não lhe faltam.
