Rene (Eddie Garcia) chegou a uma idade em que, para ele, não tem muito mais a esperar da vida – tanto que já escolheu o seu caixão, deixando-o no meio da sala de sua pequena casa, onde coleciona velharias encaixotadas e guarda fotonovelas em caixas separadas por nomes de personagens. Esses são seus únicos “amigos”. Não se dá muito bem com a vizinhança e vive em pé-de-guerra com o cabeleireiro/cafetão da vila, que lhe oferece jovenzinhos que ele sempre recusa.
A vida de Rene apenas muda quando adota uma cachorrinha vira-lata, Bwakaw, sua confidente e companheira, com quem tem momentos de ternura e eventuais pequenas brigas. Seu trabalho na agência de correios é a forma de se sustentar e matar o tempo, enquanto espera a morte chegar.
Onde ele vive, nos arredores de Manila, tudo parece precário: desde sua habitação aos meios de transporte – perua lotada ou uma espécie de mototáxi caro – a tal ponto que até as relações humanas parecem contaminadas. Não existem laços fortes por aí, todos apenas convivem uns com os outros.
A entrada de um motorista desses táxis, um sujeito que também é eletricista e meio desajeitado, causa uma grande mudança em Rene. É um processo de autodescoberta tardio – mas, diz o filme, nunca é tarde demais para isso –, que resulta em mudanças drásticas.
Jun Robles Lana, que dirige e assina o roteiro, conduz tudo com muita sobriedade, sempre recusando momentos para provocar provocar lágrimas fáceis. E encontra na excelente performance de Garcia – veterano da TV filipina, com uma carreira de mais de seis décadas – a medida certa para resultar num filme de conteúdo humanista que não se rende a saídas simplistas ou pouco realistas.
