Exibido na Semana da Crítica, em Cannes, em maio passado, e ganhador do prêmio Caméra D’Or (ao qual concorrem todos os filmes de diretores estreantes exibidos no festival), o colombiano (coprodução com Brasil, Chile e Holanda A Terra e a Sombra, de César Augusto Acevedo, é um filme que tem o tempo da narrativa bastante peculiar.
Alguns poderiam recorre ao termo reducionista “lento” para descrever o longa, mas ele é bem mais do que isso. O diretor, que também assina o roteiro, tenta capturar em imagens e narrativa a vida de personagens que se movem lentamente para o fim – assim como o mundo onde vivem.
Nesse sentido, não é de se espantar que o entorno de sua casa, numa região rural da Colômbia, seja consumido por fogo, e que a fumaça não apenas os cegue como os tente asfixiar. A chegada de Alfonso (Haimer Leal) é apenas o ponto de partida. Idoso e distante da família há anos, ele volta para reencontrar o filho, Gerardo (Edison Raigosa), ex-cortador de cana que tem uma doença pulmonar, causada por esse ambiente inóspito, e pouco tempo de vida. Sua mulher (Marleyda Soto) e sua mãe (Hilda Ruizcuida) trabalham nos campos de cana para sustentar a casa.
A situação que o filme retrata é a de uma exploração social extrema e de vidas fadadas a serem consumidas por um trabalho insalubre. Os personagens estão, de várias formas, ligados à terra e não têm outra opção. Como escapar ? Como romper a barreira, real ou imaginária, que os prende àquele local? Quais chances essas pessoas têm num mundo fora dali ? Acevedo aponta que é pouco provável que o destino reserve algo melhor a essas pessoas – mas nem por isso elas podem deixar de aspirar a uma vida melhor.
A agonia de Gerardo adquire, então, um valor simbólico. Uma agonia tal qual a do mundo primitivo onde vivem – que também parece com os dias contados. Seu fim é o processo de libertação também das pessoas que estão ao seu redor.
Trabalhando com o diretor de fotografia Mateo Guzman, Acevedo cria imagens que transitam entre o onírico e o realista, entre a esperança e a opressão. Seus quadros são composições meditadas, das quais os personagens são, às vezes, acessórios – o que não deixa de refletir a existência melancólica deles.
