Para o outro lado, do diretor japonês Kyoshi Kurosawa, parte de um romance de Kazumi Yumoto para contar a insólita história de uma jovem viúva, Mizuki (Eri Fukatsu), que, três anos depois da morte do marido, Yusuke (Tadanobu Asano), recebe sua visita.
Num dia em que Mizuki preparou um prato de que ele gostava muito, Yusuke reaparece na sala, assustando a mulher. Ele age normalmente, como se tivesse apenas viajado para muito longe e não se afogado numa viagem. O espanto, o medo, a estranheza da situação vão cedendo lugar a uma aceitação pragmática do evento extraordinário, abrindo caminho para o desenvolvimento de uma história que apela mais ao realismo fantástico do que ao clássico filme de fantasma japonês (que tem uma respeitável tradição, que Kurosawa referencia em alguns momentos).
A noite cai, Mizuki dorme. Ao acordar, pensa que viveu um sonho. Mas não, Yusuke reaparece, materializando pendências irresolvidas do casal. Os dois preparam-se, então, para uma viagem, em que Yusuke levará a mulher a visitar os locais onde ele passou estes últimos anos.
As paradas do casal, na casa de um velho que toma conta de uma distribuidora de jornais, num pequeno restaurante e numa propriedade rural, aparentemente remetem a um certo realismo, nos cenários e cores. Pequenos sinais, no entanto, vão dando pistas de uma espécie de território intermediário, revelando-se uma pendência referente ao outro mundo, numa continuidade entre diferentes escalas de realidade. Diante dos impasses, a fronteira entre elas fatalmente aparece para definir as questões deixadas em aberto, inclusive em relação aos sentimentos feridos de Mizuki em seu casamento.
Fosse mais explícita a marca mística ou menos sóbria esta direção – premiada na seção Un Certain Regard de Cannes 2015 -, o filme mergulharia num clima doutrinário semelhante aos dramas espíritas que, por algum tempo, lotaram as telas brasileiras. Mas isso não acontece. Kurosawa mantém as rédeas e injeta poesia e sentimento nas relações entre os personagens, permitindo ao filme voar mais alto.
