Há exatos 20 anos, Larry Clark filma a juventude – sempre da mesma forma exploradora e sensacionalista. Foi assim com Kids (1995), seu primeiro longa e tudo o que veio depois, sendo O Cheiro da Gente seu mais recente exemplar. Já cansados, nos perguntamos: é arte ou o quê? À primeira vista, parece apenas uma desculpa para exibição de adolescentes nus e/ou em atividade sexual. Uma leitura mais densa deve confirmar que, na verdade, seus filmes não vão além disso mesmo.
O Cheiro da Gente se passa em Paris e é falado em francês, mas traz os mesmos tipos de adolescentes cujas vidas e aparências físicas seduzem o diretor, que trabalha com um roteiro assinado por ele e o estreante Mathieu Landais. Os protagonistas são jovens skatistas que se prostituem para comprar drogas e skates – excetuando possivelmente um, todos ricos e caucasianos.
Num filme sem humor ou pulsão de qualquer outra natureza, Clark pede para termos compaixão desses pobres-meninos-ricos abusados pela vida excessiva que levaram. Enfim, é possível ter compaixão dessas pessoas – mas não num filme de Larry Clark. O diretor, aliás, aparece como um mendigo que atende pelo nome de Rockstar, faz investidas sexuais nos garotos, com direito a close em sua virilha enquanto urina em sua calça de moletom.
Nesses 20 anos de filmes do diretor, a imagem dos jovens mudou. Tanto que eles se apossaram delas e são capazes de fazer seus próprios filmes – e a internet é o campo de exibição. Eles não precisam esperar que alguém os filme em atividades sexuais – eles mesmos são capazes de fazer isso ou o que mais quiserem.
O mundo dos skatistas, aqui, aparece com egocêntrico e excludente, e para Clark isso é sensual. Gus Van Sant, com Paranoid Park, fez melhor. Situar o filme em Paris faz o diretor mirar na Nouvelle Vague, mas também erra o alvo. Aqui, conseguiu fazer um filme com diversos níveis de “sub-“. Sub-Van Sant, Sub-Nouvelle Vague, e, até, Sub-Larry Clark, o que a princípio nem era lá grande coisa.
