08/07/2026
Drama

Norte, o Fim da História

Um estudante de direito revolucionário mata uma mulher, mas outro homem é acusado e preso pelo crime. A mulher dele, então, procura meios de criar os filhos, mas a vida de todos está ligada a partir do crime.

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Norte, O Fim da História é uma espécie de “curta” na filmografia do filipino Lav Diaz, cujos longas chegam a ter 6 horas (Siglo ng pagluluwal) ou até 7h30 (Melancholia). De qualquer forma, este aqui, de 4 horas, é uma boa introdução à obra do cineasta, que foi tema de uma retrospectiva na Mostra de Cinema de São Paulo em 2013. A longa duração, no entanto, não deveria assustar ao público, pois não é puro exibicionismo - materializa a tentativa do diretor de capturar algo como o fluxo da vida de forma panorâmica no seu filme.
 
O “norte” do título é uma referência à província de Ilocos Norte, onde vive o jovem estudante de direito Fabian (Sid Lucero), que gosta de debater temas como ateísmo e anarquia com seus amigos – que não estão tão interessados assim. Além disso, ele deve dinheiro a Magda (Mae Paner), assim como Joaquin (Archie Alemania), que gostaria de abrir um café com o nome de seus filhos. As vidas deles se intersectam quando Fabian comete um crime, e a culpa recai sobre o outro, que vai preso.
 
Apesar de livre, Fabian não se sente assim, a culpa recai sobre ele, que se consome. Como em personagens de Dostoievski, o horror do personagem é o de ter a capacidade de ter cometido um assassinato. A opressão maior não é ser preso, mas exatamente o contrário: não ter sido preso pelo crime que cometeu.
 
Simbolicamente, o diretor coloca paralelos entre esses dois homens. O mundo onde vivem encoraja que o patriarca da família vá morar e trabalhar fora, e mandar o dinheiro para aqueles que ficaram. Fabian ressente-se da ausência de seus pais, e acabou criado pela empregada – um paralelo interessante com outro filme filipino recente Quando Meus Pais Não Estão em Casa, sobre a relação entre uma empregada filipina e o garoto de quem ela cuida. Já Joaquin, por sua vez, não optou por sair do país, apesar dos conselhos. E sua mulher, Eliza (Angeli Bayani), lamenta: se tivesse feito isso, hoje não estaria preso.
 
O subtítulo do filme – “O fim da história” – é uma referência à ideia do historiador norte-americano Francis Fukuyama, que, no final dos anos de 1980, com o colapso da União Soviética, decretou a vitória do capitalismo e o fim da história. As Filipinas, onde moram os personagens, ficou na ponta errada do espectro. Seu desenvolvimento truncado não dá muitas opções à vida desses homens e mulheres mostrados no filme.
 
Diaz pergunta qual o papel dessas pessoas no mundo da globalização. Não é algo que se figure rapidamente, por isso Diaz constrói sua narrativa no ritmo do cotidiano, no retrato da vida dessas pessoas, por cujas fissuras escapa uma dimensão maior de todo um país oprimido dentro de uma grande engrenagem mundial que depende exatamente disso para existir.
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