02/07/2026
Filme de época Drama

A Linguagem do Coração

Em 1885, o instituto católico Larnay, em Poitiers (França), que educa deficientes auditivos recebe a solicitação de acolher Marie, uma adolescente cega e surda. A madre superiora é contra, mas uma das irmãs, Marguerite, transforma em causa de sua vida encontrar um modo de ensinar a menina a comunicar-se com o mundo exterior.

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Partindo de uma história real ambientada no século XIX, o diretor francês Jean-Pierre Améris (Românticos Anônimos) recria o encontro entre uma freira, a irmã Marguerite (Isabelle Carré), e a garota Marie (a estreante Ariana Rivoire), uma adolescente surda e cega, a quem a religiosa consegue ensinar a linguagem dos surdos-mudos.
 
Ambientado num misto de convento e escola religiosa para crianças deficientes auditivas, o filme, roteirizado por Améris e Philippe Blasband, apoia-se no que prometia ser uma moldura rígida – história de época com fundo edificante, num contexto religioso – para enfatizar o caráter humanista deste relacionamento.
 
Marguerite, por exemplo, é uma freira mais dedicada ao trabalho na horta coletiva, ao ar livre, do que à reza. Nada escapa ao seu olhar atento. Quando o pai da menina (Gilles Treton) a traz ali, tentando convencer a madre superiora (Brigitte Catillon) a aceitá-la entre suas alunas, é Marguerite quem acaba convocada a convencer Marie a descer de uma árvore, quando ela escapa, estranhando o novo ambiente.
 
A madre, a princípio, não aceita a garota, considerando impossível educá-la  com sua dupla deficiência. Desolado, o pai a leva de volta. Mas irmã Marguerite não desistiu. Pelo contrário, obcecou-se pela tarefa de trazer a menina aos seus cuidados, retirando-a de um mundo de isolamento e silêncio.
 
A insistência da freira acaba por dobrar a madre. Mas Marie não poupará de desafios sua obstinada protetora. Por meses, a irmã não consegue tirá-la de seu mundo, além de sofrer sua revolta. A menina grita, chuta, soca, recusa-se a trocar de roupa e lavar-se. A própria Marguerite define sua missão como “calvário”.
 
Mais do que de religião, o filme fala de afeto, altruísmo, dedicação, qualidades que a irmã tem de sobra, como que destinando a Marie um instinto maternal deslocado. Até que, finalmente, ela encontra uma chave de comunicação com a garota através do objeto de que ela mais gosta no mundo – um prosaico canivete.
 
Um dos acertos do filme está em materializar a habilidade sensorial de Marie, que desfruta com alegria do sol, do vento e até dos primeiros flocos de neve. Quando consegue apropriar-se da linguagem (de sinais, dos surdos-mudos, e depois também do Braille), ela descobre um mundo de conceitos mais abstratos, em que acontecem surpresas assustadoras, como a morte.
 
Despojado, o filme não se propõe a discursos e passa longe da pregação católica. É mais uma religiosidade primitiva a que emana destas freiras, vivendo no meio da natureza.
 
Entretanto, é fato que não se procura explorar aspectos polêmicos. Ainda que sublimado, o contexto da sexualidade reprimida aparece, tanto por parte da freira, como da menina. Mas o filme nunca assume essa discussão. Sua preocupação é a vocação expressa de Marguerite por essa "filha" que ela optou por proteger.
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