Por 15 anos, o escritor e dramaturgo Alan Bennett manteve uma inusitada hóspede na garagem de sua casa, no bairro londrino de Camden Town: Mary Shepherd, uma idosa sem-teto que morava dentro de uma detonada van Bedford 1957.
A convivência entre eles rendeu um livro de memórias e também uma peça teatral assinada por Bennett, servindo de inspiração ao roteiro do filme A senhora da van, dirigido por Nicholas Hytner.
Para interpretar a protagonista, ninguém melhor do que a consagrada atriz Maggie Smith, que também interpretou Mary no teatro. Ao seu lado, Alex Jennings atua como o “anfitrião” Bennett, dividindo-se em duas versões dele, a do escritor e a do homem, permanentemente em conflito por conta do relacionamento com a hóspede – um recurso ficcional que funciona muito bem no filme.
Mary Shepherd e seu desconjuntado automóvel-abrigo faziam, há um bom tempo, parte da paisagem da rua do escritor. Não raro, as imprecações da idosa contra os moradores perturbavam o sossego do autor durante o trabalho. Assim, seus sentimentos são dúbios por ela. Tem pena de sua visível miséria, de suas roupas puídas e sujas, de sua evidente fragilidade física e mental. Ao mesmo tempo, não consegue evitar alguma raiva diante da perturbação e agressividade que ela espalha.
Até por essa permanente oportunidade de observação, além de eventuais diálogos com a personagem, Bennett sente-se confrontado pela intolerância de alguns vizinhos diante da indesejada “moradora”. Assim, quando Mary corre o risco de ter guinchado seu único bem, ele termina concordando em abrigá-la em sua garagem, afinal, vazia.
Não que o escritor pensasse, a princípio, que a convivência fosse estender-se por tantos anos. A resistência, até física, de Mary, apesar do modo de vida precário, desafia a tolerância ao seu redor – ainda mais porque ela não é exatamente mansa e cordata, muito menos agradecida, ainda que haja moradores da rua dispostos a dar-lhe presentes de Natal, que ela joga pela janela.
Bennett tem um motivo a mais para interessar-se por Mary – o desconforto que sente diante do envelhecimento da própria mãe (Gwen Taylor), cuja demência o levou a interná-la numa casa de repouso. É como se ele tivesse duas mães em paralelo, mas Mary ele ainda pudesse, de alguma forma resgatar.
Certamente, Mary não está disposta a facilitar a vida de nenhum de seus protetores. Ela é errática, selvagem, imprevisível, cheira mal. Há uma história pregressa por trás de tudo isso, que Bennett se dispõe a desvendar. Mas, mesmo conhecendo-a, isto não significa automaticamente uma vereda para a salvação.
A senhora da van é, antes de mais nada, um produto anti-Hollywood, temperado de humor inglês e afeto genuíno entre dois seres arredios e peculiares. E Maggie Smith é um trunfo que dispensa qualquer apresentação, encaixando-se num papel que é o extremo oposto da refinada condessa Violet Crawley da série Downton Abbey.
