08/07/2026
Suspense Drama

A Garota de Fogo

Luis é um professor desempregado que tenta realizar os sonhos da filha Alicia, doente de leucemia. Para obter o dinheiro para um presente para a menina, ele chantageia Bárbara, mulher casada com quem se envolveu, o que desencadeia uma série de tragédias.

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Difícil não lembrar de Luis Buñuel ao assistir a este neothriller espanhol A Garota de Fogo. Duplamente premiado no Festival de San Sebastián (melhor filme e diretor para Carlos Vermut) e com um Goya de melhor atriz para a insinuante Bárbara Lennie, o filme mergulha num universo de paixões clandestinas e perversões que muito aprazia ao velho mestre, autor de Bela da Tarde e Tristana – alguns dos trabalhos cujo imaginário este filme de Vermut certamente homenageia.
 
A aparência de normalidade dos personagens não passa de uma casca – suas emoções fazem com que pareçam, na verdade, habitar um universo paralelo. Na cena inicial, a pequena Bárbara (Marina Andruix) vive uma situação na escola que a introduz na vida de seu professor, Damián (José Sacristán). É o passado de uma relação que se estende por vários anos, lançando raízes de uma perversa interdependência, que assume aspectos criminais. Neste sentido é que a história, roteirizada também por Vermut, assume seu intrigante veio noir.
 
Um corte abrupto leva a narrativa à casa de Luis (Luis Bermejo), um professor de literatura desempregado, que está sendo obrigado a vender seus livros a um sebo por quilo para poder minimamente sobreviver, com sua filha Alicia (Lucía Pollán). A menina, de aspecto melancólico, sofre de leucemia. Seu maior sonho é completar 13 anos.
Um outro sonho de Alicia, um caro vestido inspirado em sua série de tevê japonesa favorita, deflagra o mecanismo fatal que aproxima Luis de Bárbara, agora adulta (Bárbara Lennie). Ele pensa em roubar uma joalheria para conseguir o dinheiro que lhe permitiria comprar o vestido para a filha. Quando vai quebrar a vitrine da loja, à noite, um episódio suicida fracassado o liga a Bárbara, que mora alguns andares acima.
 
Bárbara é casada e mantém uma relação estranha com o marido. E ela decide passar a noite com Luis, quando o marido está fora. O breve encontro dá oportunidade a que Luis passe a chantageá-la, extorquindo-lhe alta soma para não revelar o caso.
 
Apesar da vida confortável, Bárbara não pode pedir esse dinheiro ao marido. Então, descobre-se que ela teve uma vida pregressa, envolvida num mundo secreto de prostituição de luxo, que passa pela satisfação de várias perversões. Mais uma vez, como no passado, ela entra em contato com esse ambiente, numa espiral dramática, que a leva a contatar novamente o velho Damián, seu professor, a esta altura um ex-presidiário.
 
O embaralhamento destas situações e destinos é envolvente, ainda que nem sempre satisfatório. Como se trata apenas do segundo filme do diretor, pode-se esperar que as falhas deste trabalho venham a ser compensadas adiante numa carreira que parece promissora. Pedro Almodóvar, por exemplo, adorou o filme.
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