08/07/2026
Drama

De longe te observo

Armando é um homem solitário, que paga a meninos pobres para vê-los despidos. Um deles é Elder, ligado ao mundo do crime. Ele o assalta e agride. Mas o relacionamento dos dois tem outros desdobramentos.

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Foi uma grande surpresa e um fato inédito o filme venezuelano-mexicano De Longe Te Observo, do diretor estreante Lorenzo Vigas, ter vencido o Leão de Ouro do Festival de Veneza 2015. Mas a premiação também dividiu opiniões, já que havia concorrentes com credenciais mais expressivas, como o drama O Clã, do argentino Pablo Trapero, a animação norte-americana Anomalisa, de Charlie Kaufman e Duke Johnson, o docudrama Francofonia, do russo Alexander Sokurov, e o britânico A garota dinamarquesa, de Tom Hooper.
 
Em De Longe Te Observo, Armando (o ator chileno Alfredo Castro) é um protético solitário, de 50 anos, que mantém uma estranha e clandestina vida sexual. Ele procura adolescentes pobres nas periferias de Caracas e paga-lhes bom dinheiro simplesmente para vê-los despidos, incapaz de tocá-los ou deixar-se tocar.
 
Um desses garotos é Elder (Luis Silva), que mantém com Armando um primeiro encontro que termina em violência. Isso não impede que Armando volte a procurá-lo, criando-se entre os dois uma relação inquietante, tensa e cheia de segredos.  
 
Apesar da notória diferença etária, social e cultural, Armando e Elder compartilham a carência de uma figura paterna que, aparentemente à sua revelia, o protético acaba desempenhando na vida de Elder. Ator-fetiche do premiado diretor chileno Pablo Larraín, em filmes como Tony Manero, Post Mortem, No e O Clube, Alfredo Castro é um intérprete preciso e magnético e que aqui, como sempre, está em pleno domínio de seu personagem - é capaz de delineá-lo com poucos diálogos e expressões corporais e faciais sutis, mas intensas. Da mesma forma, o jovem novato Luis Silva tem a energia necessária a Elder, encarnando uma agressividade que encobre mal sua vulnerabilidade extrema, no contexto de uma Caracas desigual e violenta.
 
O roteiro de Vigas foi desenvolvido a partir de um argumento elaborado por ele e um de seus produtores, o mexicano Guillermo Arriaga (roteirista de Alejandro González Iñárritu em filmes como Amores Brutos, 21 Gramas e Babel (que lhe valeu uma indicação ao Oscar de roteiro original, em 2007). Fiel ao estilo de Arriaga, a história se desenrola a partir de muitas noções fluidas, subentendidas, que deixam ao espectador a tarefa de preencher lacunas. Ainda tendo em vista este pressuposto, o filme deixa à mostra algumas fragilidades, com um desfecho na verdade bastante previsível e uma série de pontas soltas.  
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