A história de uma mãe e seus cinco filhos – como os dedos de uma mão. A imagem, aparentemente simples, foi dada pelo diretor Luchino Visconti como ponto de partida a seus roteiristas, Suso Cecchi D’Amico e Vasco Pratolini, na origem de Rocco e seus irmãos, que acabou sendo um de seus filmes mais emblemáticos e merecidamente lembrados.
Rever o filme dá oportunidade a uma (re)descoberta e não só da fotografia sublime de Giuseppe Rotunno – que penou para adaptar-se à diretriz de Visconti, que queria três câmeras operando simultaneamente no set, para não perder a sensibilidade das atuações. Eram outros tempos, em que se podia dar-se ao que hoje se considera luxo, passar dois anos no desenvolvimento de um projeto – Pratolini acabou saindo do time de roteiristas, integrado depois por Pasquale Festa Campanile e Massimo Franciosa, que eram de confiança do estúdio Titanus, e também Enrico Medioli, que se tornou habitual colaborador de Visconti.
Rocco... sintetiza, como poucos filmes, a maestria da fusão das contradições e sutilezas do diretor, um nobre culto e comunista que procurou aqui unir, como em outros filmes, um enfoque realista com uma ressonância épica, que não perdesse de vista a grande arte, a literatura (uma das fontes do argumento veio de Il ponte della Ghisolfa, de Giovanni Testori, mas o diretor nunca escondeu o quanto este relato era impregnado também do Thomas Mann de José e seus irmãos e do Dostoievski de O Idiota). Se é, ao mesmo tempo, uma crônica do latente descompasso entre a Itália do norte, industrializada e urbana, e a do sul, subdesenvolvida, agrária e arcaica, o filme não é menos uma funda investigação da potência, da visceralidade e da implacabilidade das paixões humanas, mesmo num contexto familiar, dentro dos cânones da fraternidade que o ciúme fatalmente vem romper.
É um mundo masculino o destes cinco irmãos Parondi: Vincenzo (Spiros Focas), o mais velho, que migrou primeiro da Lucânia para Milão; Simone (Renato Salvatori), explosivo, machão, que sonha com o sucesso no boxe; Rocco (Alain Delon), mais suave e terno, tendente ao autosacrifício e ao sonho de não distanciar-se demasiado da própria cultura; Ciro (Max Cartier), propenso à adaptação, ao pragmatismo de uma perspectiva individual; e Luca (Rocco Vidolazzi), o menino que herda os resultados destas forças contrárias e projeta outro futuro.
No entanto, são duas forças femininas que moldam o destino destes homens. De um lado, a mãe, Rosaria (Katina Paxinou), que carrega o clã de quatro filhos remanescentes da Lucânia a Milão, para juntar-se ao mais velho, depois da morte do marido, querendo cavar à força uma nova história para eles. De outro, Nadia (Annie Girardot), a prostituta que se envolve com Simone, depois com Rocco e, recusando-se a ser apropriada pelo primeiro, termina sendo pivô da tragédia que marca a vida dos dois e dela própria.
Tecendo em paralelo o público e o privado, o afetivo e o político, Visconti assinou uma obra que dialoga com o público em todas as esferas – além de contar com um elenco empenhado em expandir as implicações deste universo que retrata, à primeira vista regional mas, pela densidade, igualmente universal. Muitos podem reconhecer em Rocco, em Rosaria, em Simone, em Nádia, em Ciro, em Luca, outros tempos e lugares.
À vontade tanto no cinema como no teatro, também como encenador de óperas, Visconti costumava dizer que o cinema para ele era o lugar da criação, onde era preciso inventar tudo – o teatro era somente uma interpretação, partindo de um texto escrito de modo definitivo. Poucos inventaram tão bem, com tanta elegância, com tanta paixão, como ele. E pensar que o Festival de Veneza não lhe deu o Leão de Ouro por Rocco e seus irmãos.
