Um belo e sutil longa brasileiro, Maresia, marcou a estreia no formato do roteirista e curta-metragista Marcos Guttman. Embarcando em mais uma interpretação apaixonada do ator Julio Andrade, aqui interpretando dois papeis, o filme embala os sentidos, a intuição e a inteligência do espectador que se deixa levar nas suas águas.
Adaptando o romance Barco a Seco, de Rubens Figueiredo – com a parceria dos roteiristas Melanie Dimantas e Rafael Cardoso -, Guttman consegue equilibrar o tom ambíguo da história, que explora a busca obsessiva de um perito de arte, Gaspar Dias (Julio Andrade) pelos vestígios de um pintor galego, Emilio Vega (interpretado também por ele).
O ator se apropria generosamente de dois personagens opostos, o introvertido Gaspar e o desvairado Vega, numa narrativa que os aproxima e confunde de maneira singular e convincente. A história evolui na imersão das duas biografias, unidas pelo aparecimento de um misterioso personagem, o velho Cabrera (Pietro Bogianchini), que teria sido amigo de infância do pintor desaparecido.
Vida, arte, concessões a padrões de sucesso, paixão, despojamento, busca de sentido e de glória, tudo isso emerge do tecido do filme, que tem na fotografia de Alexandre Ramos, na montagem de Waldir Xavier e Marília Moraes e na música original de Stefano Lentini elementos de construção coesos e imprescindíveis. O elenco de apoio nada fica a dever ao excelente conjunto, destacando-se Mariana Nunes, como a paixão do pintor, e Vera Holtz, como a dona da galeria de arte em que Gaspar trabalha.
No Cine Ceará, o filme venceu os prêmios de melhor direção e melhor ator para Julio Andrade.
