Estreia do documentarista Gustavo Rosa de Moura (Cildo) na ficção, o drama A Canção da Volta traz Marina Person, sua mulher, e João Miguel como protagonistas de uma história que mergulha nos dilemas de uma família abalada pela doença mental da mãe.
Eduardo (João Miguel) é um jornalista que apresenta um programa literário na televisão – dando oportunidade a pequenas pontas de escritores como Paulo Lins e Bernardo Carvalho, como entrevistados. Feliz com o trabalho, ele vive um drama em casa, já que a mulher, Júlia (Marina Person) vive altos e baixos de depressão, que já causaram tentativas de suicídio. O casal tem dois filhos, o adolescente Lucas (Francisco Miguez) e a menina Mari (Stella Hodges).
Saindo de documentários como Cildo (2009) e Piadeiros (2015), Moura arrisca-se na condução de uma história tensa e intimista, focada na crise do casal mas bem mais nuançada no personagem masculino. Há muito mais cenas que destacam o inferno pessoal de Eduardo diante das ausências e crises da mulher, transmitindo um retrato terno e protetor do personagem, quase abnegado e atento aos filhos. Um raro momento de fraqueza que o humaniza envolve seu envolvimento com uma estagiária na emissora (apesar de também não fugir do clichê).
A maior falha do filme está justamente no delineamento da personagem feminina. Há poucas oportunidades para que ela mesma expresse sua dor e desconcerto, não aproveitando plenamente o potencial de Marina Person como atriz, que é bastante grande. Marina, aliás, mostrou-se sensível diretora em seu drama Califórnia, este sim fazendo justiça à complexidade da protagonista feminina e adolescente.
