Produzido em sistema de financiamento coletivo e apresentado em festivais no exterior, como Locarno e Santa Maria da Feira (onde ganhou o prêmio de melhor filme), De Punhos Cerrados empresta o nome do clássico de estreia do italiano Marco Bellocchio, de 1965. Com aquela obra, compartilha o sentimento do mal-estar de uma juventude que se sente posta contra a parede, que, no filme brasileiro, encontra expressão numa rádio pirata em Fortaleza, a Sintonia Anarquista.
Este que é o 11º longa da produtora cearense Alumbramento explora mais uma vez a inquietação que procura novos canais a cada trabalho de sua autoria. Como de hábito, os irmãos Ricardo e Luiz Pretti, ao lado de Pedro Diógenes, escrevem, dirigem e atuam. São os três jovens que correm, na sequência inicial, por uma duna, numa fuga angustiada. Sequência que é um flashback explicado a seguir, contando a atuação do trio na condução da rádio pirata, que divulga poemas, debates, receitas de explosivos e canções anarquistas, como as do famoso cantor, poeta e escritor monegasco Léo Ferré (1916-1993).
Referências à parte, o filme parece escorado num presente em que os jovens procuram desafiar a ordem de maneira um tanto subliminar. Querem perturbar o sono dos bem-postos, espalhando na madrugada cartas em caixas de correio de bairros de classe média alta, em que relatam, em linguagem lasciva, supostas aventuras com as donas da casa que os maridos desconhecem.
Ao trio soma-se a presença da misteriosa e insinuante Salomé (Samya de Lavor, vista em O último trago, longa anterior do trio), no papel da mulher fatal, infiltrada nesta rede secreta dos rapazes que está incomodando autoridades e empresários.
Se localiza sua narrativa fluida em Fortaleza, o filme o faz de maneira a jamais insinuar nenhum aspecto luminoso ou aparentado a turístico da ensolarada capital cearense. Pelo contrário, a fotografia assinado por Ivo Lopes Araújo sugere a névoa e as sombras de um mundo clandestino, secreto, fugitivo, fluido, que neste estágio não sabe muito mais do que expressar sua insatisfação e seu medo, sem um caminho claro à frente.
