Dirigido pela atriz e cineasta Maria Schrader (conhecida por sua atuação em Aimée & Jaguar), o drama Stefan Zweig – Adeus Europa injeta uma sensação de estranhamento especialmente no espectador brasileiro. Apesar de focado no período em que o celebrado escritor austríaco, crítico do nacionalismo hitlerista, procurava outro país para morada e acabou fixando-se no Brasil, no início dos anos 1940, a produção, provavelmente por questões financeiras, foi filmada em São Tomé e Príncipe. Assim, as paisagens e os sotaques do português que se vê e ouve são tudo, menos brasileiros.
Muito experiente como atriz, nem tanto como diretora – este é seu terceiro trabalho nesta área -, Maria Schrader assina um filme um tanto rígido, com cortes abruptos (inclusive na montagem) ao enfileirar as seis partes de que compõem sua história. Vai melhor na direção de atores, contando com uma interpretação empenhada do protagonista, Josef Hader, além de Barbara Sukowa, como Friederike, sua primeira esposa, e Aenne Schwartz, como Lotte, a segunda, que dividiu com ele o exílio e a trágica morte, por suicídio, em Petrópolis, em 1942.
O filme começa em 1936, com um jantar em homenagem a Zweig, no Jockey Club do Rio, que lançava um livro no país, a caminho do congresso do PEN Club, em Buenos Aires. Se não teve cuidado na fidelidade ao sotaque brasileiro, a diretora não poupa um tom ferino na pompa e circunstância, sem dúvida cafonas, de certos meios sociais no Brasil da época, diante do ilustre convidado. Pior ainda é esta imagem quando se mostra uma viagem de Stefan e Lotte ao interior baiano, em 1941, visitando um canavial e tendo de lidar com uma atrapalhada festa dada pelo prefeito da cidade local.
A pressa e a falta de cuidado nesta composição – imperdoáveis, já que Zweig, finalmente, escolheu o Brasil como moradia e inclusive dedicou-lhe um livro (Brasil: Um País do Futuro) – comprometem o centro do filme, cujo roteiro, assinado também pela diretora, parece querer retratar a angústia do escritor naquele momento conturbado na história do mundo, em que Hitler assassinava impiedosamente judeus, como era o próprio Zweig.
É mais bem-resolvido o segmento novaiorquino, em 1941, em que se compreende a angústia do escritor pelo excesso de solicitações de sua intervenção para salvar intelectuais e conhecidos – até rivais – em perigo. Mesmo assim, o filme se ressente de um certo detalhismo excessivo, que compromete a fluidez dramática das cenas, apesar dos bons atores.
Voltando ao Brasil, falta uma maior contextualização que teria de ser fruto de uma pesquisa mais ampla, que permitisse avaliar a enorme contradição que significava o Brasil autoritário do Estado Novo, que deportara em 1936 para a Alemanha nazista Olga Benario (que terminaria morta num campo de concentração em 1942), conceder um visto a outro judeu, Zweig – o que tinha muito a ver com Getúlio Vargas ter visto com bons olhos as observações positivas sobre o país em Brasil: Um País do Futuro, que valeram a Zweig a absurda acusação de ter sido pago pelo governo brasileiro para escrevê-lo. Isso é mencionado de maneira tão superficial no filme que nem chega a ter realmente peso.
Essa falta de cuidado e contextualização com a realidade brasileira, além das transições bruscas e do tratamento um tanto acadêmico de toda a história pesam contra o filme. Stefan Zweig e seu curto período brasileiro certamente merecem muito mais.
