Estamos Vivos é um filme que tenta ser ousado. É narrado numa câmera subjetiva – ou seja, fazendo as vezes do olhar de um personagem – e num plano-sequência. Mais do que isso, essa câmera é usada por um menino autista de sete anos, Rafa. A trama se passa durante uma reunião de família, após a morte do avo do garoto. O reencontro traz à tona rixas do passado, diferenças e conflitos mal resolvidos nesses dez anos em que a família não se viu.
Existe em quase todos os filmes feitos em plano-sequência uma fetichização do artificio que contamina a tudo resultando em algo pouco orgânico, seja no desenvolvimento da narrativa, nos diálogos, na atuação. Poucos cineastas escapam dessa armadilha que armam para si, e conseguem justificar esse formato. O diretor Filipe Codeço e o roteirista Álvaro Chaer se veem presos a uma dinâmica que eles mesmos criam e forçam dentro do filme.
A discussão – como toda discussão de família – só interessa aos envolvidos, e com o tempo, a gritaria e as acusações se tornam enfadonhas, apesar do esforço do elenco, que não consegue transpor o engessamento formal do plano-sequência, e parecem precisar seguir à risca a marcação de cena, entre outras coisas.
Além disso, a câmera subjetiva de Rafa abusa excessivamente com a boa vontade do público. É difícil imaginar um garoto de 7 anos filmando – de forma não-profissional, claro – com noção de enquadramento, zoom, movimento de câmera e afins. Isso tudo por 80 minutos sem perder o fôlego.
