Esta Sibylla não faz profecia nenhuma. Mas, desde o momento em que seu olhar determinado, silhueta esguia e cabelos revoltos desembarcam na cidadezinha de Krasnyje Utki (que significa "patos bonitos" na língua local), dá para sentir cheiro de confusão. Tudo isso porque, invertendo a mão natural do amor, que deveria levá-la de encontro a Mika (Shaco Iashvili), que tem 14 anos como ela, cismou de apaixonar-se pelo pai dele, o astrônomo, viúvo e quarentão Alexander (Evgeni Sidichin).
É quanto basta para acelerar a desordem amorosa que já domina esta pequena cidade, em que a insaciável Verônica (Amalia Mordvinova) trai sem parar seu insípido marido tenente, por exemplo com o bem-dotado Piotr (Levani Outchaneichvili) - um excêntrico que protagoniza uma cena impagável no interior de uma fábrica que, até bem pouco tempo atrás, no domínio soviético, batia recordes de produção num sentido bem mais ortodoxo. Hoje, a fase de superpotência socialista está sepultada por uma grossa camada de ironia, como simboliza o fato de que a grande atração da única tela de cinema da cidade seja não um clássico regional dos velhos tempos, como o Encouraçado Potemkim, de Sergei Eisenstein, mas o erótico Emmanuele - pequeno escândalo francês de 1974, superado há muito em seu gênero mas ainda poderoso como metáfora do descontrole instaurado pelo desejo.
Com um sentido de humor anárquico que lembra, em seus melhores momentos, o espírito de Fellini, a diretora georgiana constrói um microcosmos de figuras humanas que, apesar das óbvias diferenças lingüísticas, podem ser reconhecidas sem dificuldades à primeira vista. E, se a história guarda um rastro de sangue no seu desenrolar, isto é mostrado com uma naturalidade sem sobressaltos nem melodrama que é a marca de um estilo de filmes daquela latitude - como os recentes Luna Papa, raro produto do Tadjiquistão, e o russo As Bodas.
