07/07/2026
Drama

Ninguém está olhando

Nico é um ator argentino que encontra sucesso com uma série de TV, "Rivales". Mas decide deixar tudo para trás, inclusive um caso complicado com seu produtor, indo tentar a vida em Nova York - onde tudo se torna um desafio ainda maior.

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Coprodução entre Argentina, Brasil e Colômbia, o drama Ninguém está olhando, da diretora Julia Solomonoff, incorpora muitos temas no seu enredo, a partir da atormentada jornada existencial de Nico (Guillermo Pfening). Ator argentino que vinha tendo sucesso numa série de TV, Rivales, ele decidiu abandonar tudo, mudando-se para Nova York, especialmente para livrar-se de uma relação amorosa opressiva com seu produtor, Martín (Rafael Ferro).
 
Nesse trecho da história filmada em Nova York é que ocorrem as sequências mais interessantes, voltadas a uma quebra de expectativas ligadas a padrões sociais. Por exemplo, Nico, por ser homem, intriga um grupo de babás latinas que se reúnem num parque, quando começa a cuidar de um bebê, filho de uma amiga. Ele também desafia o estereótipo quando vai fazer um teste para um papel de latino e é recusado preliminarmente apenas por seu biótipo não corresponder ao esperado, por ser loiro.
 
Nessa luta de Nico para simplesmente sobreviver numa cidade competitiva, longe de suas raízes, com dificuldades para encontrar trabalho na própria área – um filme que ele ia fazer é sempre adiado -, ele encara um desafio aos próprios limites, resistindo à tentação de voltar, já que Martín o assedia continuamente à distância.
 
Evidentemente, quer-se abordar várias questões, envolvendo choques culturais, identidade de gênero, necessidades de afirmação e sobrevivência. Guillermo Pfening - que iniciou sua carreira cinematográfica com Coração Iluminado, de Hector Babenco – mostra-se um intérprete afinado a um vendaval de emoções viscerais e é o grande trunfo de um filme apoiado num roteiro que aponta inúmeras discussões. Pfening foi o merecido vencedor de um troféu de melhor ator no Cine Ceará 2017, uma das quatro premiações desta produção, que levou também as de melhor filme para o júri oficial, melhor longa para o júri Abraccine e melhor montagem.
 
Vencedora de uma edição anterior do Cine Ceará com El último verano de la Boyita (2009), Julia Solomonoff é o tipo da diretora capaz de construir um filme assim, ancorado na trajetória errática de um personagem ambíguo e em momento de transição – o que transforma a sustentação da história num tour de force para o ator, que se sai a contento. Não é filme de muitas certezas, o que poderá incomodar o espectador que gosta de sair de uma sessão de cinema com a total compreensão do que se passou na tela. Na verdade, compartilhar Ninguém está olhando com seus personagens equivale a dividir um trecho de vida com alguém que procura um novo rumo num mar de incertezas. É, por isso, o tipo de filme que pode crescer ao ser visto mais de uma vez.
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