Em sua estreia em longas, o diretor e roteirista Aaron Salles Torres carrega no tom de uma história sombria, envolvendo o tenso relacionamento entre Inácio (Fernando Alves Pinto) e sua mãe, Zaira (Catarina Abdalla).
Há um clima claustrofóbico, de terror psicológico, impregnando cada confronto entre Inácio, esquizofrênico e homossexual desprezado insistentemente por essa mãe, que o responsabiliza por uma série de frustrações na vida. Eles moram no pequeno apartamento de zelador de um prédio na zona sul carioca, conseguido pelo trabalho do marido, Guilherme (Tião D’Ávila), gravemente doente e também alvo de agressões verbais de Zaira.
Embora afirme no material de imprensa que sua história se baseia em fatos reais, uma ficção é outra coisa e requer adaptações. Faltam, por exemplo, mais nuances à personagem feminina central, que assume ares de bruxa má no confronto com marido e filho, ambos fragilizados por questões diferentes.
Há um acirramento na tensão quando Inácio, que trabalha como zelador, se apaixona por um dos moradores (Lucas Malvacini), cultivando um certo fetiche ao encontrar uma fotografia dele e observando, pela câmera de segurança interna, onde ele guarda a chave de seu apartamento. O momento em que Inácio decide entrar nesse apartamento é, talvez, a sequência mais bem-construída de toda a história, gerando uma tensão genuína.
Mas a proposta, como um todo, esbarra num desenvolvimento um bocado unilateral tanto do personagem de Inácio, quanto de Zaira, que compromete a humanidade de que poderiam ser revestidos. São fragilidades de iniciante, é certo, esperando-se que em futuros trabalhos possam ser superadas.
