Em A filosofia na alcova, o grupo de teatro paulistano Os Satyros leva ao cinema uma velha conhecida sua: a obra do Marquês de Sade, da qual vem fazendo montagens por cerca de três décadas. Dessa maneira, chegam ao texto com certa intimidade – não apenas os diretores e roteiristas Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, como também o elenco. Essa familiaridade ajuda na compreensão dos personagens e na desinibição em cena.
Comparado ao primeiro longa da dupla de diretores, Hipóteses para o Amor e a Verdade (2015), também baseado numa peça do grupo, há uma boa evolução aqui. Enquanto o outro parecia um teatro mal filmado, com personagens rasos e situações clichês, aqui, a ousadia formal se materializa mais na encenação eficiente, praticamente num único cenário, do que com a nudez e o sexo explícito.
Os protagonistas são Dolmancé (Henrique Mello) e Juliette (Stephane Sousa), que recebem a missão de iniciar uma jovem virgem, Eugenie (Bel Friósi) na arte da libertinagem. Com a ajuda de um escravo (Hugo Godinho) e do irmão de Juliette, Andre (Felipe Moretti), eles introduzem a moça, primeiro à revelia dela, depois consensualmente, no mundo dos prazeres da carne.
Os melhores momentos do filme são aqueles que se dão dentro do quarto de Juliette, onde acontece a educação carnal de Eugenie. Há outros, quando o filme sai pelas ruas de São Paulo, contrastando o clima do século XVIII do original com o presente (duas espécies de decadentismo), que não funcionam muito bem e soam um tanto gratuitos – tal como a introdução, em cena, rápida e sem muito interesse, de um helicóptero e celular.
O que importa mesmo é a descida ao inferno do prazer por parte da garota, que se deixa levar pela sedução física de seu trio de professores. O sexo, aqui, tem pouco de libertário e funciona mais como símbolo da decadência de uma elite ensimesmada em seu próprio prazer e nada mais.
Em tempos de obscurantismo como o presente, é corajoso que o filme coloque em cena sem pudor ou rodeios nudez frontal e sexo explícito. Por outro lado, é de se pensar o efeito que isso causa. Se, num primeiro momento, é o furor e até desconforto, com o tempo se torna natural e, mais tarde, como tudo o que é excessivo, anódino. Tal como a abundância de violência, no cinema, os exageros aqui causam uma certa alienação e acabam perdendo parte do efeito crítico que poderiam ter.
