O longa Antes o tempo não acabava envereda pela ficção para traçar a trajetória de Anderson (Anderson Tikuna), jovem índio que vive com a irmã e a filha doente desta na periferia de Manaus. Ele se sente dividido entre a cultura ancestral, com a qual perdeu contato, e a vida urbana, em que ele não consegue uma inserção satisfatória, sofrendo discriminação inclusive por ser índio.
As polêmicas começaram a acompanhar o filme desde seu lançamento, no Festival de Brasília 2016, por conta de um aparente infanticídio e da segunda realização de um ritual chamado “de tucandeira” – que originalmente marca a passagem à vida adulta dos meninos da etnia saterê-mauê, mas, no contexto do filme, sugerem uma tentativa de “cura gay” de Anderson, aplicada por dois membros mais velhos de sua aldeia.
Questionados, num debate naquele festival, inclusive por uma antropóloga sobre se não seria negativa, e mesmo atrasada, a imagem da cultura indígena projetada no filme, até passível de ser apropriada por membros das bancadas ruralistas e evangélicas do Congresso, os diretores Sergio Andrade e Fábio Baldo se defenderam. “Colocamos um índio como protagonista e em nenhum momento nos colocamos contra eles. Inclusive os indígenas do elenco debateram o andamento da história”, afirmou Baldo.
Andrade, por sua vez, afirmou que procuraram “tirar o índio de uma imagem mitificada, estereotipada. Nossa ideia era humanizá-lo, mostrar como índio vive essa dicotomia entre os preceitos de sua cultura e a do branco”. Nunca houve, segundo eles, a ideia de mostrar o ritual como “cura gay”.
Atriz no filme, Rita Carelli – filha do cineasta Vincent Carelli (diretor dos documentários Corumbiara e Martírio) - , por sua vez, observou que “índios urbanos são mais invisíveis do que os outros. Por isso, acho importante colocar este tema como um indício, uma provocação”.
Já o próprio protagonista, Anderson Tikuna, finalmente, manifestou sua alegria de atuar no filme, informando que a homossexualidade hoje existe nas aldeias. “Antes, não existia”, afirmou.
